
REMANUFATURA E ECONOMIA CIRCULAR DIGITAL: DA ESTRATÉGIA EUROPEIA À EXECUÇÃO INDUSTRIAL EM PORTUGAL
A indústria europeia atravessa um momento decisivo. Não por força de ruturas súbitas, mas pela consciência crescente de que os modelos que sustentaram décadas de crescimento deixaram de responder aos desafios do presente. Num contexto marcado pela escassez de recursos, pela pressão climática, pela instabilidade geopolítica e por um quadro regulatório cada vez mais exigente, competitividade e sustentabilidade deixaram de ser objetivos contraditórios, passando a assumir-se, cada vez mais, como dimensões indissociáveis.
Durante demasiado tempo, a prosperidade industrial assentou num modelo linear, eficiente em contextos de abundância, mas claramente vulnerável num mundo com limites bem definidos. Produzir mais deixou de ser suficiente. O verdadeiro desafio reside hoje em reter valor, prolongar o tempo de vida dos produtos e reduzir perdas ao longo das cadeias industriais. Esta mudança não decorre de um impulso ideológico, mas de uma leitura pragmática da realidade económica e estratégica.
É neste enquadramento que surge o Remanufacturing-X, uma iniciativa de referência do programa Horizon EuropeINDUSTRY – Twin Transition, da Comissão Europeia, dedicado a abordagens integradas para a remanufatura no âmbito da parceria Made in Europe. O objetivo é claro, ao reforçar a liderança europeia em cadeias de valor industriais circulares, digitais e climaticamente neutras, conjugando inovação tecnológica, política industrial e impacto económico real.
Um pilar de elevado valor
O seu conceito responde diretamente a esta ambição, ao afirmar-se como uma infraestrutura estratégica europeia que posiciona a remanufatura como um pilar de elevado valor da economia circular digital. A integração de inteligência artificial, gémeos digitais, espaços de dados interoperáveis e passaportes digitais de produto cria um enquadramento sólido para que a indústria deixe de perder valor no fim de vida dos produtos e passe a reinseri-lo no mercado de forma segura, escalável e economicamente sustentável. Um dos méritos centrais reside precisamente nesta mudança de escala e de perceção, em que a remanufatura deixa de ser encarada como uma atividade residual e passa a afirmar-se como uma verdadeira estratégia industrial, com impacto direto na proteção de margens, na redução de dependências externas e no reforço da autonomia produtiva europeia. Num contexto em que as matérias-primas críticas assumem uma dimensão geopolítica cada vez mais evidente, a capacidade de reter valor dentro das fronteiras económicas da União Europeia torna-se um fator decisivo de competitividade.
Do ponto de vista económico os benefícios são claros, pois a remanufatura permite reduções significativas no consumo de energia e de matérias-primas, diminui custos operacionais e aumenta a resiliência das cadeias de abastecimento. O impacto mais relevante manifesta-se, contudo, na criação de novos mercados, sustentados por plataformas digitais B2B, por práticas ambientais, sociais e de governação responsáveis, e por serviços avançados assentes em dados e confiança. A indústria deixa, assim, de competir apenas em função do preço e do volume, passando a competir em inteligência, circularidade e desempenho.
Existe também uma dimensão política incontornável, alinhada com o Pacto Ecológico Europeu, com o Regulamento de Ecodesign para Produtos Sustentáveis, com a estratégia europeia de dados e com os objetivos de soberania digital. Ao gerar evidência concreta em vários setores industriais, não se limita a cumprir o enquadramento regulatório existente, contribuindo ativamente para o informar e aperfeiçoar, através de dados reais, metodologias testadas e modelos passíveis de replicação à escala europeia.
É neste contexto que o papel de Portugal se torna especialmente significativo. Ao assegurar, através do UNINOVA CTS/GRIS – Centro de Tecnologias e Sistemas da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, a coordenação científica e técnica do Remanufacturing-X, o país passa a integrar o núcleo de decisão de um dos projetos atualmente mais estratégicos da transição industrial europeia.
Exemplo português
Esta liderança reflete-se igualmente no plano industrial, com um dos pilotos de referência sediado em Portugal, na cervejeira LETRA, demonstrando de forma concreta como a remanufatura pode gerar valor em setores tradicionais e altamente competitivos. Neste piloto, subprodutos do processo cervejeiro, como resíduos de malte e de lúpulo, deixam de ser tratados como desperdício e passam a ser remanufaturados em novos produtos alimentares certificados. Através de ferramentas digitais de rastreabilidade, análise de ciclo de vida e otimização de processos, é desenvolvido um modelo circular e replicável, que reduz consumos de energia e de água, cria novas fontes de receita e estabelece pontes inovadoras entre os setores da cerveja e da alimentação.
Este exemplo português é particularmente elucidativo. Demonstra que a transição industrial não está reservada a grandes grupos económicos ou a setores de alta tecnologia. Pode ser protagonizada por PME inovadoras, enraizadas no território, com impacto económico local e capacidade de projeção internacional. Mostra, sobretudo, que a circularidade não implica perda de identidade, mas antes uma evolução inteligente do saber-fazer existente.
O Remanufacturing-X aponta, por fim, para uma mudança mais ampla na forma como se pensa a indústria e o consumo, num contexto em que os produtos têm história, dados e valor prolongado, e em que a tecnologia serve para reforçar competências humanas, e não para as substituir. Num tempo em que muitos anunciam o futuro, poucos o constroem com esta profundidade, escala e coerência estratégica. A Europa sabe para onde quer ir e Portugal está, de forma clara e consistente, na linha da frente desse caminho.

