RICARDO JARDIM GONÇALVES

NA VANGUARDA DA TRANSFORMAÇÃO DIGITAL DA SAÚDE 

A transição digital já não é futuro. É o presente que redefine o modo como vivemos e cuidamos da saúde. Num tempo em que a inteligência artificial, os dados clínicos em tempo real e a medicina personalizada remodelam os sistemas de saúde, Portugal dá um passo decisivo ao assumir a liderança europeia na formação de profissionais capazes de conduzir esta mudança.  

 O passo dado por Portugal materializa-se no Mestrado em Competências Digitais na Saúde (MCDS), programa pioneiro coordenado pela Universidade NOVA de Lisboa, através do Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores (DEEC) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT NOVA), e financiado pela Comissão Europeia no âmbito do Programa Digital Europe através do projeto DS4Health (Digital Skillsfor Health).  

O mestrado resulta de uma aliança internacional de sete universidades de referência mundial: a FCT NOVA, a NOVA Medical School e a Escola Nacional de Saúde Pública (Portugal), em parceria com a RWTH Aachen University(Alemanha), ENSAE Paris (França), Medical University of Vienna (Áustria), University of Ioannina (Grécia), Tel AvivUniversity (Israel) e Politehnica University of Bucharest (Roménia). A Secretaria Regional de Saúde da Madeira é parceira institucional, reforçando o elo entre a investigação universitária e a modernização das políticas de saúde nas regiões autónomas. 

Necessidade urgente 

O Mestrado em Competências Digitais na Saúde (MCDS) responde a uma necessidade urgente, que resulta da falta de profissionais preparados para integrar ciência, tecnologia, dados e gestão nos cuidados de saúde. A pandemia mostrou que hospitais e administrações públicas precisam de quadros com literacia digital e capacidade analítica, aptos a usar a tecnologia como meio para uma saúde mais eficiente, humana e sustentável. Com duração de dois anos (120 ECTS), o MCDS combina formato híbrido (presencial e online), lecionação em inglês e uma estrutura interdisciplinar, aberta a licenciados em saúde, engenharia, informática, ciências exatas, economia ou gestão, bem como a profissionais com experiência relevante. 

O primeiro semestre oferece uma base comum em literacia digital, estatística aplicada, programação, ética e sistemas de informação em saúde. Depois, o estudante escolhe entre duas áreas de especialização: Dados em Saúde e Tecnologias para a Saúde Digital, que abordam temas como IA, interoperabilidade, IoT, robótica médica, bioinformática, telemedicina, cibersegurança e design de serviços digitais. O último semestre é dedicado à dissertação ou projeto prático, frequentemente em parceria com hospitais, empresas tecnológicas ou instituições públicas. 

O MCDS distingue-se pelo modelo de aprendizagem orientada para resultados (Outcome-Based Education), criado em co-criação com universidades, hospitais e empresas tecnológicas. Cada unidade curricular segue padrões europeus de qualidade, com revisão científica entre instituições e validação por um Comité Internacional de Especialistas. 

 DS4Health Knowledge Centre 

O programa assenta no DS4Health Knowledge Centre, plataforma digital que reúne o Catálogo Unificado de todas as universidades participantes, garantindo transparência, interoperabilidade e mobilidade total de estudantes entre países. A componente tecnológica é sustentada pelo inovador Digital Skills Lounge, inaugurado na FCT NOVA no Campus da Caparica, que materializa o conceito Classroom 4.0 com salas inteligentes equipadas com sensores IoT, quadros interativos, câmaras HD, realidade aumentada e sistemas de IA que permitem aulas híbridas, simulações clínicas e programação remota de dispositivos médicos. Esta infraestrutura permite, por exemplo, que um estudante em Lisboa participe numa experiência de telemedicina simulada em Viena ou que um grupo em Tel Aviv colabore num projeto de robótica em Aachen. 

O mestrado privilegia aprendizagem prática e colaborativa, com metodologias de problem-based learning e project-based learning. Os estudantes enfrentam desafios reais, desde o desenho de algoritmos de apoio à decisão clínica até à implementação de plataformas interoperáveis. Promovem-se hackathons, bootcamps e seminários com parceiros como Bayer, CLINOMIC, Josef Stefan Institute e várias autoridades de saúde, fomentando trabalho em equipa, literacia ética e capacidade de inovação, que são competências-chave para um mercado que exige conhecimento técnico e visão estratégica. Um dos elementos distintivos é a política de financiamento integral para estudantes europeus, através das bolsas Digital Skills DS4Health, que cobrem propinas e parte das despesas de mobilidade. O acesso inclusivo atrai talento diversificado, de médicos a engenheiros, de informáticos a gestores, reforçando a coesão europeia no desenvolvimento de competências digitais avançadas. 

 Impacto do MCDS 

O impacto do MCDS vai muito além do meio académico. Ao formar profissionais capazes de desenvolver e gerir soluções digitais, o programa contribui diretamente para a modernização do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Entre as aplicações práticas destacam-se projetos de interoperabilidade hospitalar, monitorização remota de doentes, gestão preditiva de recursos clínicos e uso de IA em diagnóstico precoce. Estes avanços traduzem-se em ganhos de eficiência, redução de custos e melhor qualidade dos cuidados, com reflexos positivos na economia e na confiança dos cidadãos. 

A coordenação portuguesa deste projeto europeu representa o reconhecimento da maturidade científica e institucional de Portugal e faz dele um laboratório europeu de excelência na formação avançada em saúde digital. Alinhado com as prioridades da União Europeia em competências digitais, transição verde e modernização dos serviços públicos, o MCDS contribui para o desenvolvimento sustentável e para a autonomia estratégica europeia em saúde. É uma resposta concreta à necessidade de um sistema mais moderno, eficiente e centrado nas pessoas, com Portugal protagonista da transformação europeia que une inovação e inclusão. O mestrado arrancou neste ano letivo com mais de 250 candidaturas, revelando um interesse extraordinário e confirmando que Portugal está pronto para liderar o futuro da saúde digital. 

 

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