RICARDO JARDIM GONÇALVES

A NOVA LÓGICA INDUSTRIAL:  DADOS COMO PRODUTO E PRODUÇÃO COMO INTELIGÊNCIA 

O projeto europeu RE4DY – Resilient Factory 4.0 Product and Production Continuity and Sustainability – apostana transformação digital da indústria com base em dados, inteligência artificial e digital twins. 

Num mundo em constante disrupção, com pandemias, instabilidade geopolítica e ruturas nas cadeias de abastecimento, a resiliência deixou de ser apenas uma vantagem competitiva. É hoje o critério que distingue quem fica para trás de quem lidera o futuro. Tornou-se uma necessidade estratégica. Neste novo paradigma, o projeto europeu RE4DY (Resilient Factory 4.0 Product and Production Continuity and Sustainability) surge como resposta concreta e inovadora, apostando na transformação digital da indústria com base em dados, inteligência artificial e digital twins (i.e., gémeos digitais). A ambição é clara: construir ecossistemas industriais interligados que não apenas respondam com eficácia a choques externos, mas que antecipem, se adaptem e evoluam continuamente.  

Financiado pelo programa Horizon Europe, o RE4DY junta 31 organizações europeias de referência, entre universidades, centros de I&D e empresas industriais que atuam em setores estratégicos como a mobilidade elétrica, aeronáutica, automóvel e a indústria de ferramentas. Portugal está no centro deste esforço europeu, com um papel particularmente relevante do UNINOVA CTS/GRIS – Centro de Tecnologia e Sistemas da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, e da Volkswagen Autoeuropa. 

 Abordagem inovadora 

O RE4DY introduz o novo conceito emergente de “Dados como Produto” (“Data as a Product” ou DaaP), transformando dados industriais em ativos interoperáveis, seguros e reutilizáveis. Esta abordagem inova ao romper com a fragmentação dos dados em silos isolados, abrindo caminho à criação de gémeos digitais cognitivos, ou seja, réplicas inteligentes dos processos e ativos industriais, capazes de aprender, simular e apoiar a tomada de decisão em tempo real. 

“Data as a Product” é um conceito central no projeto RE4DY e resulta no paradigma moderno da indústria digital. Em vez de tratar os dados como um subproduto técnico ou um recurso meramente operacional, este conceito propõe que os dados sejam geridos, estruturados, qualificados e disponibilizados como produtos reutilizáveis, com valor próprio e regras claras de acesso, qualidade, segurança e interoperabilidade. Em termos simples, significa produzir dados com intenção clara de uso por terceiros, tal como se fabrica um componente físico. Incluir metadados, contratos, qualidade, segurança e rastreabilidade, tal como acontece com produtos físicos certificados, e assim permitir o seu consumo de forma autónoma (self-service), escalável e fiável por diferentes partes de um ecossistema industrial.  

Este conceito é essencial para alimentar gémeos digitais cognitivos, permitir decisões autónomas em tempo real e construir cadeias de valor resilientes e colaborativas. Assim, esta nova geração de tecnologias articulada através de arquiteturas distribuídas, redes industriais seguras e computação de ponta, permite uma continuidade digital entre o planeamento, a produção e a resposta a eventos inesperados, com as fábricas e cadeias de valor a passarem a operar como sistemas vivos, resilientes e eficientes. 

 Piloto de referência 

Um dos pilotos mais emblemáticos do projeto está a decorrer em Palmela, nas instalações da Volkswagen Autoeuropa, onde a cadeia logística interna está a ser reinventada com base em gémeos digitais, machine learning e planeamento generativo. A ideia é substituir os sistemas manuais e reativos por uma logística cognitiva, capaz de antecipar estrangulamentos operacionais, propor soluções e operar com autonomia, sem abdicar da supervisão humana. Este piloto, com o contributo técnico-científico do UNINOVA CTS/GRIS, representa uma demonstração prática de como a indústria automóvel pode transitar para modelos de produção mais ágeis, energeticamente eficientes e orientados para a personalização em larga escala. As estimativas apontam para ganhos significativos com uma redução de até 20% no tempo de adaptação logística, 15% no tempo de conceção de soluções e 10% na pegada energética. 

O RE4DY não é apenas um exercício tecnológico. É uma resposta estratégica a desafios reais. Entre os principais impactos esperados destacam-se uma maior agilidade industrial, reduzindo o tempo de lançamento de novos produtos em até 15%, um aumento da produtividade, com incrementos superiores a 10% na eficiência global dos equipamentos, uma sustentabilidade reforçada, com redução de resíduos, consumo de energia e materiais em até 15%; criação de emprego qualificado, com cerca de 800 novos postos de trabalho estimados, e um retorno económico direto, com mais de 13 milhões de euros no horizonte de quatro anos. 

 Portugal na vanguarda 

Embora o RE4DY seja um projeto multinacional, a atuação de Portugal destaca-se por unir duas forças complementares, com a capacidade científica do UNINOVA CTS/GRIS, que lidera desenvolvimentos nas áreas de dados industriais e inteligência artificial, e a força industrial da Volkswagen Autoeuropa, um dos maiores exportadores nacionais, que oferece um contexto real de aplicação em larga escala. A combinação destas competências posiciona Portugal como um copiloto na vanguarda da transformação industrial europeia. Num momento em que a indústria enfrenta uma transição crítica rumo à neutralidade carbónica e à digitalização soberana, estas são uma oportunidade de afirmação estratégica para o país. 

Mais do que uma resposta a crises, trata-se de uma proposta de futuro para a indústria europeia e para Portugal. Ao articular inovação tecnológica com visão estratégica, promove uma nova geração de fábricas mais inteligentes, resilientes e humanas. E mostra como, com os parceiros certos e a ambição certa, Portugal pode estar no centro da próxima revolução industrial. 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *