PEDRO PINTO LEITE

VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA – COVID-19: passado, presente e futuro. O que parecia ser uma corrida de velocidade rapidamente se tornou numa maratona. A evolução da COVID-19 não tem sido homogénea em Portugal, o que exige uma monitorização atenta de determinados indicadores de saúde, através da vigilância epidemiológica. A vigilância epidemiológica tem por fim intervenções clínicas e de saúde pública adequadas e atempadas, por forma a reduzir as complicações da doença, garantir a capacidade de resposta do sistema de saúde e conter a transmissão do vírus e da doença. Os oito meses decorridos desde a declaração da COVID-19 como uma Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional pela Organização Mundial da Saúde merecem uma reflexão sobre as lições aprendidas com o passado, uma análise do presente e a identificação das principais opções para ultrapassar os desafios do futuro.

Um novo momento da epidemia – Vivemos um novo momento da pandemia. Desde agosto, os novos casos de infeção por SARS-CoV-2/COVID-19 aumentaram de forma consistente em Portugal e no resto da Europa. No entanto, este fenómeno não foi acompanhado pelo aumento da gravidade e mortalidade tão expressivas como na primeira onda da epidemia. Tal pode ser explicado pela rápida evolução do conhecimento científico sobre a doença, o que parece ter contribuído para uma melhor resposta clínica e epidemiológica, assim como pelo aumento do número de testes laboratoriais realizados e pelo facto de a transmissão do vírus ocorrer maioritariamente entre indivíduos mais jovens. Ainda assim, a vulnerabilidade da população geral à doença permanece elevada, corroborada pelos estudos de seroprevalência realizados que sugerem um nível de imunidade inferior a 15% na maioria das regiões europeias. De acordo com o Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), em Portugal, mantendo um elevado número de novos casos de doença e um baixo impacte da mesma como referido, o risco de COVID-19 para a população em geral é moderado. No entanto, para os indivíduos mais vulneráveis, como os portadores de doenças crónicas ou os indivíduos com idade superior a 60 anos, este risco torna-se elevado, uma vez que o impacte da doença nestes indivíduos é mais elevado do que na população em geral.

Desafios adicionais no futuro – O futuro da COVID-19, no outono e no inverno, traz desafios adicionais com a maior necessidade de cuidados de saúde, como resultado de uma maior incidência de doenças infeciosas como a gripe e um maior agravamento de doenças respiratórias crónicas e de doenças cardiovasculares potenciadas pelas baixas temperaturas. Assim, é expectável que a incidência de COVID-19 aumente em Portugal, que haja uma maior procura de serviços de saúde e que haja uma maior necessidade de prestação de cuidados de saúde “não-COVID-19”. Até novas medidas farmacológicas estarem disponíveis, como uma vacina segura e eficaz contra a COVID-19, a resposta à epidemia passa pela implementação de intervenções que incluem a preparação para um cenário de transmissão generalizada, o reforço de medidas não-farmacológicas, o reforço no rastreio de contactos, um fortalecimento na comunicação de risco para os mais jovens e uma maior monitorização do nível de saúde “não-COVID-19”, sobretudo na proteção da saúde mental. Esta resposta pretende-se conjunta e participada, através da mobilização de todos os agentes do setor da saúde e do país, conforme o Plano da Saúde para o Outono-Inverno 2020-21, da Direção-Geral da Saúde.

Medidas a manter e a reforçar – Portugal poderá progredir de uma transmissão local limitada para uma transmissão comunitária sustentada, o que irá requerer uma capacidade de resposta clínica e epidemiológica forte. As áreas geográficas que não tiveram uma transmissão generalizada durante a primeira onda poderão estar mais suscetíveis e menos preparadas para atender ao aumento da procura de serviços, pelo que é sugerido que este aspeto seja acautelado. As intervenções de saúde pública deverão continuar a incluir a proteção dos indivíduos mais vulneráveis e dos profissionais de saúde, especialmente os envolvidos na prestação de cuidados de saúde. As medidas não-farmacológicas devem ser reforçadas e proporcionais à situação epidemiológica do país, atendendo aos efeitos que podem causar no bem-estar geral da população, no funcionamento da sociedade e na economia. Estas medidas foram amplamente comunicadas e incluem o distanciamento físico e a etiqueta respiratória, a higienização frequente das mãos, a limpeza e desinfeção frequente de equipamentos e superfícies, a ventilação natural dos espaços e a utilização adequada de máscara e outros equipamentos de proteção individual. Dever-se-á continuar a reforçar a permanência em casa e contacto com o SNS24 sempre que existam sintomas sugestivos de COVID-19. É essencial que os jovens se revejam como parte da solução e sejam ativamente envolvidos em estratégias de controlo da pandemia. A efetividade do rastreio de contactos e do isolamento dos casos depende do reforço e capacitação das equipas de Saúde Pública e da estratégia de realização de testes, que o ECDC recomenda ser o mais acessível e atempada possível.

A pandemia de COVID-19 trouxe desafios adicionais a todos os setores e mudou o mundo como o conhecemos. É nosso dever aprender com o passado, não baixar a guarda no presente e preparar o futuro, com base na melhor evidência científica disponível e através da partilha de responsabilidade em respostas intersetoriais, de forma a melhor suportar esta maratona.

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