NUNO MELO

A BANHA DA COBRA  

Terá sido por falta de informação previa, que a maior parte dos governantes caídos em desgraça desde março foram substituídos pelo primeiro-ministro? É evidente que não. António Costa sabia das circunstâncias e das debilidades, dos casos e dos problemas, alguns com relevância criminal, da maior parte dos 13 ministros e secretários de Estado que a seu tempo quis sentados ao seu lado, nos bancos do Executivo. Simplesmente, não se importou com isso.

A mais forte das razões revela aquele que é um dos maiores inconvenientes das maiorias absolutas. António Costa, como outros precedentes no cargo, inebriou-se com os resultados das eleições de 30 de janeiro e achou-se legitimado a qualquer coisa. Confundiu maioria absoluta com poder absoluto, e por via do equívoco de perceção, com impunidade política. De resto, o processo mental foi resumido com perfeição e na primeira pessoa, em entrevista ilustrada com narcísica pose majestática, numa palavra: “habituem-se”.

 Outra razão foi de ordem prática: restringindo, salvo raras exceções, a base de recrutamento ao aparelho partidário, António Costa encontrou no Governo e no Estado a ferramenta ideal para resolver os problemas internos no PS e combater a influência de Pedro Nuno Santos junto do partido e do grupo parlamentar. O custo de oportunidade da falta de exigência como critério, foi Portugal, arrastado todos os dias para o fundo da lista dos países que menos crescem na União Europeia, a par de uma profunda instabilidade política.

É por isso fácil perceber que as 36 perguntas com que o primeiro-ministro diz agora querer filtrar escolhas futuras, são mais do que um expediente para controlo de danos, espécie de banha da cobra vendida por causa da visibilidade mediática de cada escândalo e da pressão da opinião pública.

Não houve sequer o pudor de tentar evitar o envolvimento do Presidente da República, num mecanismo de verificação de governantes que, nesta parte, apenas teve o propósito de corresponsabilizar Belém pelas más escolhas e inibir consequências políticas.

Não obstante, facto é que, se o questionário agora imposto tivesse sido criado por quaisquer razões de princípio, António Costa não o limitaria aos governantes vindouros. Visados seriam também os atuais ministros e secretários de Estado. Como consequência, mantendo ministros e secretários de Estado que sabe serem alvos de investigações criminais, entre outros motivos, sem ver nisso problema, condição que trata como pecado em relação a convites a fazer no futuro, o primeiro-ministro coloca-se numa situação de contradição absolutamente insanável.

Numa caricatura reveladora, no dia 14 de janeiro o primeiro-ministro comunicou ao partido que o OS tem de ser “muito mais exigente nas nomeações”, sendo no dia 15  confrontado com a noticia de mais um governante investigado por razões criminais. Consequências? Nenhumas.

Tudo sopesado, é nítido que o Governo já perdeu condições para se continuar a regenerar num quadro institucional normal. A situação política tenderá a agravar-se e Portugal precisa de eleições antecipadas.

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