NADIA BUGIA

O EFEITO BORBOLETA DA TELEMEDICINA – A telemedicina já não precisa de apresentações. Dúvidas houvessem sobre a necessidade, utilidade e eficiência dos serviços de saúde remotos, ficaram dissipadas durante o período de propagação do famigerado vírus internacional, ao qual todos fomos, forçosamente, apresentados em 2020 

Para os mais distraídos ou desconectados, segundo a Organização Mundial de Saúde, a Telemedicina reúne quatroprincípios fundamentais: 1. Proporcionar suporte clínico; 2. Ultrapassar barreiras geográficas; 3. Envolver diferentes tipos de Tecnologias de Informação e Comunicação; 4. Melhorar os resultados de saúde. 

Em boa verdade, a telemedicina no mundo já nem deve ser considerada uma “nova” tecnologia, pois existe há mais de 20 anos em Portugal e há mais de 50 anos fora de Portugal, em concreto nos anos 1960, utilizadamaioritariamente pelos militares e pelos astronautas, via rádio e via telefone. A tecnologia foi evoluindo, mas a motivação basilar mantém-se a mesma: levar a saúde a quem precisa dela, independentemente da sua localização. 

A telemedicina tem vários formatos, sendo a videoconsulta o mais utilizado e difundido, pelo seu, relativo, baixo custo e pela facilidade de pôr em prática. Como cuidado complementar, está cada vez mais longe de ser considerado secundário e, sejamos profissionais de saúde ou pacientes, todos percebemos que já faz parte do nosso quotidiano, com a sua recorrência a ser cada vez mais frequente e a abrangência de especialidades e técnicas na sua abordagem a alargar vigorosamente. É com facilidade que percebemos que as videoconsultas são um benefício para os doentes, pacientes ou utentes, como queira chamar-lhes, uma vez que as suas vantagens ficam mais expostas à luz docircuito médico-doente. Porém, muitas vezes a beleza pode mesmo estar nos detalhes e, citando Fiódor Dostoiévski, “(…) salvará o mundo”. Romantismos à parte, o que quero dizer com isto é que, para lá da óbvia transformação tecnológica e do upgrade relacional entre os pacientes e os profissionais de saúde, a telemedicina levantou uma onda de efeitos secundários. 

VANTAGENS A REGISTAR – Quando vamos a uma consulta presencial, na grande maioria das vezes temos de nos deslocar médias ou longas distâncias. Utilizamos muitas vezes veículos a combustão, potenciamos gastos secundários do nosso orçamentopessoal e, chegando ao local, utilizamos uma máscara, o médico consumirá outros materiais descartáveis e no finalda consulta receberá, muito provavelmente, uma fatura em papel. A telemedicina reduz distâncias e gastos de material descartável. Já pensou nos benefícios para o ambiente quando milhares de pessoas fazem uma consulta online? 

Outra consequência das novas tecnologias na saúde diz respeito ao mercado laboral, na perspetiva do trabalhador e na perspetiva do empregador. O impacto das videoconsultas nas empresas verifica-se na diminuição de absentismo, na prevenção ativa de acidentes de trabalho, bem como na melhoria generalizada das condições de trabalho e dos benefícios salariais, que potencia a retenção de trabalhadores. Mas não só. Para os trabalhadores representa um acompanhamento da saúde cómodo e fiável, não só através das videoconsultas, mas também pela telemonitorizaçãoremota de trabalhadores para vigilância de sintomas ou de doenças crónicas. 

A telemedicina, enquanto grande aliado dos exames complementares de diagnóstico, poupa tempo aos doentes, que recebem os relatórios dos exames mais rápido do que seria expectável se tivessem um médico a relatar em presença física no local onde é feito o exame; poupa dinheiro ao SNS, pois os exames analisados à distância são pagos por relatório efetuado, logo é um incentivo à produtividade (um médico em presença física num hospital é pago à hora, sem previsão de produtividade); aumenta a capacidade de resposta, aumenta a eficácia dos diagnósticos e diminui a pressão nos serviços de saúde. 

Os médicos, e outros profissionais de saúde, também fazem parte da lista de beneficiados com a saúde aliada à tecnologia. Cada vez mais, gerem os seus tempos de trabalho, acolhem diferentes tipos de rendimentos e deixaram de ter barreiras físicas, podendo, facilmente, misturar lazer e viagens com trabalho sem prejuízo do seu profissionalismo. 

Também socialmente vemos os efeitos da telemedicina, no combate aos efeitos da desertificação de certas zonas do país, na aproximação dos cuidados de saúde mental a toda a população e, até, no favorecimento do aumento generalizado da literacia em saúde e em aparelhos tecnológicos. 

IMPACTO NA ECONOMIA – Fazendo uma breve passagem pelos impactos na economia, também nesse campo é visível o desenvolvimento da medicina à distância, mais concretamente no que concerne ao aumento da utilização das videoconsultas. Hoje, há uma maior abertura dos mercados externos para importação de meios humanos e tecnológicos relacionados com a saúde, por via da inovação e do fortalecimento da tele-saúde em Portugal. Da nossa parte, solidificou-se o setor das tecnologias remotas, que resultou num aumento da oferta de emprego e da procura de perfis altamente qualificados.O Estado Português também beneficia bastante deste panorama, não só por via de impostos, mas também pela redução de custos de deslocação de doentes e de uma diminuição da pressão nos centros de saúde e hospitais. Acrescendo a isto, temos hoje a oportunidade de ter uma consulta com qualquer médico do mundo, assim como os nossos médicos podem ajudar pacientes de outros países. Já tinha pensado nisto? 

À data de hoje, pode não ser impressionante, mas não há dúvidas de que é impactante. Os quatro princípios definidos pela OMS são, de facto, os pilares da existência dos serviços de saúde remotos, que estão diariamente ao nosso serviço e dos quais todos tiramos partido, pois o efeito borboleta da telemedicina é vasto e acredito que muitos estarão ainda por analisar. 

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