MIGUEL GUIMARÃES

TEMPO DE CUIDAR DA CIÊNCIA E DOS VALORESA saúde conquistou ou recuperou a centralidade merecida e foi quem mais rápido se soube adaptar às circunstâncias sensíveis e desconhecidas, que acabou por ter mais sucesso, mesmo a nível económico. It is not the strongest species that survive, nor the most intelligent, but the ones most responsive to change.” A frase, como muitos reconhecerão, é atribuída a Charles Darwin, acabando a ser citada, de quando em vez, nomeadamente em artigos da área clínica à gestão empresarial. No último ano, contudo, quando tive oportunidade de a reler, a verdade é que ganhou uma nova dimensão. Darwin, evidentemente sem o saber, descreveu em poucas palavras aquilo que representou a resposta mundial à maior pandemia da história recente.  

O SARS-CoV-2 aboliu algumas fronteiras, elevou outras, mas sobretudo recentrou as respostas mundiais no que verdadeiramente importa, ou deve importar: a saúde conquistou ou recuperou a centralidade merecida e foi quem mais rápido se soube adaptar às circunstâncias sensíveis e desconhecidas que acabou por ter mais sucesso, mesmo a nível económico. Os tempos que vivemos continuam a ser de mudança e de adaptação e, mais do que insistir em recuperar a normalidade do antigamente, o importante é que saibamos reconstruirmo-nos como sociedade e que aproveitemos para recuperar valores como a fraternidade, a solidariedade e o humanismo. Concomitantemente, depositámos todas as nossas esperanças na medicina e na ciência e é certo que não saímos defraudados. Em tempo recorde, vimos várias vacinas aprovadas e a liderança clínica permitiu operacionalizar verdadeiras revoluções no terreno. Mas é da associação da ciência com os valores, a que consagramos a nossa vida no Juramento de Hipócrates, que podemos tornarmo-nos em seres maiores, íntegros, unos, ao serviço do próximo. Como Daniel Serrão tão bem descreveu, na atividade médica, a dimensão de curar tem de estar justaposta com a dimensão de cuidar, sendo o ano pandémico evidência disso mesmo, com a criatividade individual dos médicos e outros profissionais a permitir superar muitos obstáculos e a aproximar os serviços das famílias numa fase em que confinar foi palavra de ordem. “Cuidar é assumir o outro, fragilizado, em corpo e em espírito, sabendo que a pessoa é unidade substancial e que a pessoa doente é unidade ameaçada de rutura.” No ato médico cabe sempre uma dimensão deontológica e uma outra virtuosa. O médico pode praticar a sua arte cumprindo os deveres estabelecidos pelos seus conhecimentos científicos e capacidades técnicas – e cumpre o que a deontologia profissional impõe. “Mas pode acrescentar à perfeição técnica a virtude pessoal que se manifesta na dedicação beneficente, na compaixão, no carinho, no desinteresse pelo valor material dos seus atos, pela honestidade intelectual, pela preocupação com a equidade e principalmente por uma prudência abrangente que é um juízo de sabedoria prática, a phronesis da ética aristotélica.” 

Valorizar a saúdeDesta forma, volvido um ano desde os primeiros casos de Covid-19 em Portugal, este é também o momento certo para valorizarmos quem salva vidas, quem todos os dias concretiza os serviços de saúde, tantas vezes elogiados a nível internacional. É também o momento de não nos contentarmos com menos do que a saúde mostrou ser capaz de fazer, isto é, não podemos continuar a aceitar como uma inevitabilidade a suborçamentação crónica e a incapacidade de resposta em tempo útil quando sabemos que sem saúde não há economia, sem saúde não há nada. A esfera política optou por gerir o dossier da pandemia como uma prioridade, deixando muitos outros doentes para trás. Analisem-se os números reunidos pela consultora MOAI a propósito do projeto Saúde em Dia, desenvolvido pela Ordem dos Médicos e pela Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, com o apoio da farmacêutica Roche: em 2020 foram feitas menos 7,8 milhões de consultas médicas presenciais nos centros de saúde (reflexo do desvio dos médicos de família para tarefas relacionadas com a Covid-19), menos 3,4 milhões de consultas, cirurgias e urgências nos hospitais (reflexo da opção política de ter doentes covid em quase todos os hospitais, causando disrupção nas equipas e nos espaços e gerando também mais desconfiança nos cidadãos), e menos 25 milhões e exames complementares de diagnóstico e terapêutica, que se vão traduzir em diagnósticos tardios e num aumento da morbilidade e mortalidade que ainda estamos longe de conseguir medir. 

Não houve uma visão global do sistema de saúde e o preconceito ideológico venceu, deixando muitas pessoas para trás e os médicos e outros profissionais de saúde em situações de sofrimento ético cujo verdadeiro impacto ainda vamos conhecer nos próximos tempos. Cabe-nos a todos nós, como sociedade, como cidadãos que querem ser vozes ativas e construtivas nos locais por onde passam, exigir que a saúde seja uma prioridade política para todos, o que passa por acarinhar com palavras, condições e carreiras quem todos os dias procura chegar mais longe e dar anos à vida e vida aos anos, e por proporcionar uma resposta equitativa a todos os portugueses – sem dependência da morada, condição económica ou patologia. 

 Nesta edição em que se assinala também o 14.º aniversário da revista FRONTLINE, não posso terminar sem dar os meus sinceros parabéns a toda a equipa, fazendo votos de que este dia se repita por muitos anos e que juntos continuem a conseguir reinventar-se e levar um produto muito interessante e diversificado aos vossos leitores. A informação é essencial para o crescimento de uma sociedade sólida, coesa e solidária, e a revista FRONTLINE tem conseguido ocupar um espaço muito importante neste campo. Bem hajam!  

 

 

 

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