MIGUEL GUIMARÃES

 

TEMPO DE MUDAR A MÚSICA O ano que passou surpreendeu-nos a todos. Ninguém estava preparado e todas as decisões são muito difíceis, sobretudo num país como Portugal, que acumula uma saúde e uma economia frágeis. 

Quem me conhece mais de perto sabe que melómano me confesso. Música e café são dois dos ingredientes muito presentes no meu dia a dia. Há quem retenha o mundo em imagens ou em palavras. Também o arrumo dessa forma, mas tendo a associar muitos dos momentos a uma determinada música ou sonoridade. O último ano foi particularmente fértil em episódios fortes e que nos marcam como sociedade, como médicos, como pessoas. Não sei qual pode ser a música ou as músicas que definem uma pandemia, até porque o que mais me marcou em 2020, nesse sentido, foi precisamente o silêncio nos primeiros meses no Hospital de S. João, com os corredores vazios de pessoas e de doenças (que sabíamos que continuavam a existir na casa de cada um). Mas dei por mim a pensar várias vezes em John Lennon. A começar no Imagine, e nas referências que faz na música à ideia de um mundo sem países ou fronteiras, e de como nos confrontámos com isso de uma forma negativa e que não imaginámos. Mas, sobretudo, lembrei-me de uma frase que Lennon disse e ganhou uma dimensão diferente na atualidade em que nos encontramos, em que o poder político tarda em assumir o efeito das suas opções: “É uma falta de responsabilidade esperarmos que alguém faça as coisas por nós.” 

Decisões difíceisSejamos honestos. O ano que passou surpreendeu-nos a todos. Ninguém estava preparado e todas as decisões são muito difíceis, sobretudo num país como Portugal, que acumula uma saúde e uma economia frágeis. Precisamente pelo carácter novo e avassalador do SARS-CoV-2, foi, e é ainda, essencial ouvir quem sabe, o que acontece cada vez menos. E quem sabe é que está no terreno. É quem está todos os dias a salvar vidas, independentemente da cor política, da dotação orçamental, do despacho que ora muda administrativamente isto, ora tenta intervir aquilo. A liderança clínica tem sido a pauta da nossa orquestra de combate ao vírus.  Somos seres livres, mas perante um desafio da magnitude do que enfrentamos não podemos isentar a responsabilidade política. Os cidadãos portugueses foram exemplares e até se anteciparam às autoridades em muitas medidas necessárias, mas perante meses sem rumo na comunicação, com estratégias pouco claras, sobreposição e contradição entre esfera técnica e esfera política, não lhes podemos pedir mais nem lhes podemos imputar os resultados desastrosos de um Natal que foi gerido politicamente e que nos trouxe ao elevado preço de um novo confinamento. É responsabilidade do Governo determinar as medidas certas a cada momento e não podem agora apontar o dedo aos portugueses. Como lembrava Churchill, não basta dizer “estamos a fazer o possível”, pois é preciso fazer tudo o que é necessário. 

O ano das vacinas e da ciênciaEste ano de 2021 será certamente o ano das vacinas e da ciência e devemos encará-lo com esperança. Mas as vacinas não são uma resposta que permita, no imediato, abandonar as outras medidas necessárias para travar a pandemia e, por isso, envolver o plano de vacinação em propaganda é errado, irresponsável e, acima de tudo, perigoso para a saúde pública. O fundamental é, sim, a divulgação de informação clara e transparente sobre as vacinas e os critérios científicos que regem a sua administração, para que os portugueses confiem e percebam o processo. Estamos em tempos em que urge mudar a música, porque a que temos ouvido está a desafinar. Para que não sejam necessárias interpretações, não é uma sugestão na mudança de atores que estou a pedir. É a falta de estratégia que está em causa. O nosso SNS é vítima de muitos anos de desinvestimento, com a esquerda e com a direita. Falta também uma visão de sistema, com um foco nas pessoas e vontade de resolver os seus problemas. Portanto, uma dança de cadeiras não resolve nada por si só. É hora de valorizar e respeitar os médicos e os restantes profissionais de saúde. De investir a sério nas suas carreiras, como forma de reconhecimento e para se dar um sinal claro de que a saúde é efetivamente uma prioridade. Uma prioridade porque uma sociedade moderna só se concretiza em pleno com pessoas saudáveis, felizes e com a melhor qualidade de vida possível. Uma prioridade porque sem saúde não há economia. Precisamos urgentemente de aumentar o acesso dos doentes não Covid-19 ao sistema de saúde, de dar médico de família a todos os portugueses. 

Estar do lado das soluçõesA Ordem dos Médicos tem feito várias recomendações e procurado estar do lado das soluções. Mobilizámos os médicos, criámos projetos solidários para fazer chegar material necessário a quem cuida. Colaborámos em dezenas de documentos sobre a retoma da atividade e em normas. Insistimos no uso da máscara em espaços interiores, em espaços exteriores e pedimos uma atenção especial aos doentes que estavam a ficar para trás e aos lares. Estamos onde sempre estivemos e o país pode continuar a contar connosco. Voltando ao som e à músicao que mais quero em 2021 é voltar a ouvir a azáfama habitual nos hospitais e centros de saúde. Mesmo as cadeiras a ranger com ruídos que denunciam o muito uso e a impertinência de quem espera, os altifalantes roucos que quase nunca emitem os nomes dos doentes de forma clara, o sistema de senhas que substituiu alguns altifalantes, mas que causa transtorno aos mais velhos, ou os sacos com os exames arrumados num caos próprio de doentes que acumulam doenças crónicas. São imagens que não espelham um sistema ideal, mas que fazem parte de uma instituição viva e a responder a quem dela precisa, mesmo com muito espaço para melhorar. Para 2021, a minha expetativa – e de todos nós, diria – é que possamos reencontrar uma normalidade nas áreas que mais falta fazem a todos nós, a começar pela saúde. 

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