
“REVEILLONS-NOUS!” – De acordo com um relato vindo a público através da imprensa norte-americana, a decisão final de iniciar um conflito armado com o Irão não terá sido consensual. Voz ou vozes mais avisadas terão argumentado no sentido dos enormesriscos de uma operação dessa natureza que, no caso de falhar ou de não atingir todos os seus objetivos, teria graves impactos nos Estados Unidos e a nível global.
Essa posição não mereceu acolhimento e os resultados estão à vista. Sentimo-los diariamente. Mas, no momento emque escrevo, tudo leva a crer que estarão apenas no seu início, com o retomar das atividades hostis entre osbeligerantes.
Estamos perante países com uma diferença abissal em termos políticos e culturais e os decisores norte-americanos hoje no poder têm dificuldade em compreender como civilizações milenares e com culturas diametralmente opostas àssuas levam a comportamentos diferentes perante estímulos idênticos.
Basta atentar no seguinte: enquanto um regime teocrático, em que poder político e religioso se interpenetram, podegalvanizar o seu povo para a participação na guerra como instrumento de salvação, uma democracia não tem essapossibilidade. Ao contrário, sabemos a valorização que as democracias ocidentais fazem da vida humana e como umadecisão de mobilização alargada para a guerra dos seus nacionais é amplamente rejeitada e pode ter consequênciaspolíticas profundas.
Winston Churchill referia esta diferença nas reações sociais de uma forma muito impressiva: “Vale mais um homem com convicção do que cem com opiniões!”
Tudo leva a crer que tem havido falta de capacidade de análise desta dimensão, a das convicções que motivam, quegalvanizam e que fazem cada pessoa exceder-se a si própria. Em época tão próxima de eleições intercalares tudo teriaaconselhado uma enorme prudência, evitando enveredar por mensagens erráticas, contraditórias, provocadoras, e porações provocatórias que se sabe como começam e desconhece-se como acabam.
Um dos aspetos que tem caracterizado a época atual é, em meu entender, a sacralização da economia, muitopreocupada com o seu crescimento, mas muito pouco preocupada com a justiça da sua distribuição com, ao mesmotempo, o concomitante abandono ou, pelo menos, menosprezo do pensamento reflexivo que produz conhecimentosobre a condição humana, o sentido da vida, o que legitima o exercício da ação política, a interdependência entre sereshumanos, o mundo e os ecossistemas, e por aí adiante.
Na verdade, conseguimos um grande avanço com a especialização do conhecimento, mas também perdemos a noçãode como tudo está interligado. Sabemos cada vez mais sobre cada uma das partes, mas deixamos de perceber o todo,que não é apenas a soma das partes e ignora a importância das inter-relações.
Um dos maiores pensadores do século XX, Edgar Morin, que perdemos fisicamente em maio último, prestes a completar 105 anos de idade no início de julho, deixa-nos uma obra extraordinária que identifica grande parte dos males do nosso tempo.
Considerando que a humanidade atravessa uma época de grande perturbação, através da Teoria do PensamentoComplexo que desenvolveu, não se eximiu a deixar-nos algumas orientações designadamente nas conferências queproferiu no nosso país em anos recentes.
Mesmo em épocas onde tudo parece desmoronar, é possível – afirmava – manter a esperança, se optarmos pela metamorfose em vez de, pura e simplesmente, deixarmos degradar.
Metamorfose que implica mudar formas de viver e de pensar. E já via sinais dessa mudança numa maiorconsciencialização da crise da biosfera e como ela nos afeta, na maior consciência que vamos tendo de que somostodos diferentes, mas partilhamos a mesma condição de seres humanos que transportam em si o resultado da evoluçãodesde as partículas primordiais, uma globalização que trouxe uma noção mais clara de cidadania global, e aindispensabilidade do diálogo para, apesar das nossas diferenças, encontrarmos pontos de entendimento.
Só é possível, afirma, resolver as várias crises que afetam a humanidade, desde a económica à ambiental, à social, à política, que se alimentam umas às outras, se investirmos na compreensão das suas interconexões profundas.“Despertemos!”, insta-nos, num dos seus últimos livros publicados. Talvez seja a altura de uma rejeição profunda e expressiva da subserviência a que assistimos no comportamento de alguns responsáveis mundiais na última reunião da NATO.

