
MAIS UM 8 DE MARÇO
Há quem coloque a questão sobre se faz ainda sentido celebrar o dia 8 de março enquanto data que pretende não sóchamar a atenção para as questões das desigualdades que atingem as mulheres, como também indicar caminhos para as resolver progressivamente.
Estranha questão essa quando bastaria atentar, em termos nacionais, na dimensão da violência doméstica – só no anopassado morreram às mãos de maridos ou companheiros ou de ex-maridos ou ex-companheiros 25 Mulheres – ou, emtermos internacionais, na extensão e impunidade de que beneficiou o tratamento pelas autoridades do chamadoescândalo Epstein para perceber a gravidade do problema.
Estes são gritantes sinais de que as Mulheres e as Raparigas continuam a ser consideradas “coisas”, meros objetoscuja propriedade se reclama o que constitui uma prova gritante de como vivemos em sociedades muito atrasadas ondea cultura dos Direitos Humanos ainda não penetrou. E direitos humanos com justiça, com paz e com desenvolvimentohumano.
Por essa razão, para além do trabalho desenvolvido pelas Nações Unidas nestas dimensões, outras organizações se debruçam sobre elas e a sua evolução ao longo do tempo. É o caso do World Economic Forum, que publica, anualmente, desde 2006, o Global Gender Report no âmbito do qual avalia os progressos alcançados em termos de igualdade de direitos e dignidade entre Homens e Mulheres em quatro dimensões: participação económica e oportunidades, níveis de qualificação, saúde e sobrevivência e capacitação política.
Sem surpresas, a região do mundo onde o caminho para a igualdade de género está globalmente mais avançado é naAmérica do Norte mas, mesmo aí, serão necessários esforços sustentados para conseguir progressos. Segue-se-lhe a Europa que, nomeadamente na capacitação política, até se encontra em primeiro lugar mas tem pior desempenho,designadamente, na esperança de vida saudável à nascença.
Entre nós, também a Fundação Francisco Manuel dos Santos, através da Pordata, divulgou no dia 8 de março o Perfilda Mulher em Portugal: representatividade, conquistas e assimetrias, onde descreve indicadores vários que espelham o nosso nível de cumprimento nas mesmas dimensões com vários desenvolvimentos, de que saliento, citando: “Portugal já supera metas internacionais de representação feminina em cargos de liderança empresarial e apresenta níveis departicipação política acima da média europeia, no entanto subsistem assimetrias no emprego e nos salários.”
Quanto à “Esperança média de vida: em Portugal, tal como na União Europeia, as mulheres têm uma maior esperançamédia de vida à nascença do que os homens. Essa esperança média de vida tem vindo a aumentar para ambos, aolongo dos anos, e, em 2024, era de 85,4 anos para as mulheres e de 79,8 anos para os homens. Estes valores sãosuperiores aos da UE27: 84,4 anos para as mulheres e 79,2 para os homens. Desde 2015 que se observa umatendência de aproximação, decorrente de um crescimento mais rápido da esperança média de vida masculina(aumentou 62 dias, em média, por ano) face à feminina (aumentou 35 dias, em média, por ano).”
Precisávamos que esta diferente velocidade na melhoria dos indicadores de saúde fosse bem estudada, pois não se explica, na minha perspetiva, apenas pelo facto de muitas mulheres terem adotado comportamentos anteriormente maiscomuns nos homens como, por exemplo, o tabagismo ou o consumo de bebidas alcoólicas. Qual o papel que aqui terãoa manutenção do modelo masculino no ensino médico, ou a menor investigação das doenças que matam mais as mulheres ou, ainda, a insuficiente inclusão de mulheres nos ensaios clínicos, esta última, hoje em dia já em regressão? Conviria perceber, pois são áreas de investigação muito importantes para a nossa vivência coletiva.
Na verdade, a saúde das populações é central para o desempenho da Economia de cada país. Consequentemente, para quem só se preocupa com a expressão económica dos fenómenos sociais, talvez fosse interessante encarar o gravíssimo problema da persistência da vastidão das desigualdades entre homens e mulheres sob essa perspetiva.
Fazendo um pouco de humor para sublinhar as incoerências do mundo atual, seria caso para recordar a célebre frase“se não for por amor, que seja por interesse”! Mas não! Estes fenómenos traduzem-se em tragédias humanas tãoprofundas e com um tal poder destrutivo que seria bom que se percebesse que é fundamental arrepiar caminho e capacitar o maior número possível de pessoas de todas as faixas etárias no sentido de que enquanto as desigualdadespersistirem ficamos todos a perder, sobretudo nas dimensões intangíveis da vida.
E para que disso tenhamos consciência, é necessário, enquanto for necessário, continuar a invocar o 8 de março.

