MARIA DE BELÉM ROSEIRA

PÉS BEM ASSENTES NA TERRA 

Enviaram-me há tempos um pequeno vídeo em que se referia que, à medida que os ginásios ficam mais cheios, as bibliotecas estão cada vez mais vazias. Os corpos estão cava vez mais esculpidos – e é bom para a saúde o exercíciofísico – mas as mentes estão cada vez menos cultivadas e isso é péssimo para que possamos compreender o mundoem que nos movemos e o contexto no qual somos chamados a fazer escolhas, designadamente as que decorrem da participação em atos eleitorais. 

A este propósito, tenho-me lembrado muito de Zygmunt Bauman, sociólogo/filósofo, entretanto desaparecido, cuja obrapublicada seguia com atenção e que continuo a reler. Revejo-me em muitos dos conceitos que com ele aprendi, o último dos quais – o da “sociedade líquida” – que para mim caracteriza de forma inspirada os tempos atuais em quenada é permanente e tudo flui numa corrente líquida que não ganha forma e não permite duração nem previsibilidade.  

Numa entrevista por ele concedida a Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke1,em 2016, em que reflete sobre vários aspetosda “sociologia humanística” que o autor defende, discorre sobre a sociedade contemporânea e os seus contornos e, partindo da interdependência entre todos os seres humanos, afirma: “não acredito mais na possibilidade (e até no desejo) de uma ‘sociedade perfeita’, mas acredito numa ‘boa sociedade’ definida como aquela que se recrimina semcessar por não ser suficientemente boa e não estar fazendo o suficiente para se tornar melhor…” 

Vem isto a propósito do atual período pré-eleitoral para a Presidência da República que estamos a atravessar e em queos vários candidatos são chamados a pronunciar-se sobre as propostas que defendem para o exercício de tal função, avançando alguns deles com ideias que não cabem na competência que constitucionalmente lhes competiria no casode serem eleitos. E nem todos os eleitores conhecem com o detalhe necessário o nosso sistema político e as suascondicionantes. 

Ora, neste contexto, muitas das propostas apresentadas como cabendo ao Presidente da República são da competência do Governo ou da Assembleia da República, ou até mesmo colidem com a separação de poderes ou com decisões supranacionais, que o mesmo é dizer serem incumpríveis. Tenta-se, através de ruído e mais ruído, moldar as escolhas dos eleitores que, a acreditarem no que lhes é apregoado, as mais das vezes sem contraditório por parte de quem suscitou as respostas, poderão cair em escolhas erradas.  

Interrogo-me sobre o que leva a tal comportamento por parte de candidatos a cargos de tamanha responsabilidade, mas não creio que possa ser ingenuidade. Falta de estudo da Constituição da República seria já grave, mas inclino-me mais para que seja, mais uma vez, como tem acontecido noutros atos eleitorais, aproveitamento de tempo de antenapara propaganda de ideias que nunca poderão contribuir para a criação de uma “boa sociedade”, ou então nem sequerestão ao alcance de decisões nacionais. 

Na verdade, como dizia Bauman noutra entrevista, desta feita concedida ao Público, já em 2013, “(…) no nosso mundoglobalizado, os poderes, no sentido da capacidade de fazer as coisas, tornaram-se globais, enquanto a política, ou seja, a capacidade de decidir quais dessas coisas devem ser feitas, mantém-se local, como antigamente, confinada àsfronteiras do Estado soberano’. Resultado? Os Estados, que têm nominalmente o território integralmente a seu cargo, estão a sofrer um constante défice de poder, o que os impede de cumprirem a sua promessa (hoje são as bolsas de valores, não os gabinetes dos ministérios, que definem a linha entre as políticas realistas’ e as políticas irrealistas’). À conta disso, os governos ficam sem saída: têm de satisfazer as reivindicações dos seus eleitores, mas ao mesmotempo têm de ganhar os favores dos poderes supranacionais, e as duas exigências são mutuamente incompatíveis”. 

A sabedoria popular sedimentada ensina-nos que “se a esmola é grande, o pobre desconfia”. 

É tempo, pois, de ponderação cuidada por parte dos eleitores, que não devem confiar no que, soando bem é, afinal, irrealista. Pior do que uma desilusão é a consciência do erro praticado por ingenuidade, mesmo por parte de quem deveria ter aprendido que se a esmola é grande é caso para pôr os pés bem assentes na terra e não confiar. 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *