LUÍS PISCO

ESTILO DE VIDA SAUDÁVEL

Quem nunca recebeu um simpático e bem-intencionado conselho de um familiar, amigo ou mesmo do seu médico, alertando para a necessidade de adotar um estilo de vida saudável?

Mais cedo ou mais tarde acabamos por refletir sobre o que nos disseram e pensar na forma detornar esse conselho realidade. Os médicos de família e professores americanos Robert Rakel e David Rakel (pai e filho) no seu Tratado de Medicina Familiar enumeram quatro questões que as pessoas gostariam de ver respondidas quando colocam o foco no seu estilo de vida e pensam em prevenção primária (impedir que as doenças se desenvolvam modificando as causas comportamentais ou ambientais). As quatro perguntas identificadas pelos professores americanos são:

1. O que é um estilo de vida saudável?

2. Qual a prevalência de estilos de vida saudáveis entre os pacientes?

3. Quais são os potenciais benefícios para os pacientes que têm ou que mudam para um estilo de vida saudável?

4. Qual o maior obstáculo para a mudança de estilo de vida no consultório de um Médico de Família?

As respostas a estas quatro perguntas são bastante claras. Os cinco elementos essenciais de um estilo de vida saudável são:

1. Não fumar. (0 cigarros)

2. Consumir cinco porções de frutas ou vegetais por dia.

3. Dez minutos de relaxamento, silêncio ou meditação, diariamente, para redução do stresse.

4. Manter o Índice de Massa Corporal (IMC) abaixo de 30 kg/m2 e trabalhar para reduzi-lo para 18,5 kg/m2.

5. Exercitar-se por pelo menos 150 minutos por semana (cerca de 20 minutos diários), o equivalente a pelo menos caminhar rápido.

Estes cinco elementos-chave podem ser sucintamente comunicados às pessoas, de uma forma simples, pelos números 0-5-10-30-150.

ENCORAJAR À MUDANÇA

Em relação à prevalência de um estilo de vida saudável entre a população geral dos EUA, a prevalência de um estilo de vida saudável definido pelos quatro critérios 1, 2, 4 e 5 é de apenas 3%. Isso significa que um grande número de pessoas poderia beneficiar ao serem encorajadas a adotar um estilo de vida saudável não só nos EUA como na generalidade dos países.

Em relação aos benefícios potenciais de adotar um estilo de vida saudável são muito significativos:

• Redução de 40% a 65% na mortalidade por todas as causas.

• Redução de 81% a 87% nos eventos de doença coronária.

• Redução de 67% em todas as doenças cardiovasculares.

• Uma redução de 50% a 71% no risco de acidente vascular cerebral.

• Uma redução de 58% a 93% no risco de desenvolver diabetes tipo 2.

• Redução de 36% a 60% nas mortes por doença oncológica.

Em relação à última questão, sobre qual o maior obstáculo para mudanças no estilo de vida noconsultório de um Médico de Família, é importante reconhecer que para que uma intervenção comportamental no estilo de vida seja prática, efetiva e aceitável para a maioria dos médicos, deve ser breve, facilmente memorizável e simples de comunicar aos pacientes. Em muitos casos existe falta de treino dos médicos e de outros profissionais de saúde em entrevistasmotivacionais. Esse é um grande desafio para a formação futura dos profissionais. Para ter sucesso na motivação das pessoas para a adoção de estilos de vida saudáveis, é necessário conhecer os seus principais fatores de risco, o comportamento, assim como o seu contexto socioeconómico e cultural.

CONSENSO SUBSTANCIAL

Apesar de pequenas variações, há agora um consenso substancial sobre o que constitui um “estilo de vida saudável” e estudos demonstram que um estilo de vida saudável está associado a grandes reduções na mortalidade por todas as causas e na morbilidade por múltiplas doenças.

O problema da prevenção e do seu sucesso está na ordem do dia e discute-se a evolução doenfoque tradicional centrado na doença, para uma nova abordagem mais geral do estilo de vidae uma prática clínica que adote uma abordagem ampla e holística de prevenção em vez de um foco único na prevenção, por exemplo, da doença coronária.

Segundo a OMS, a promoção de estilos de vida saudáveis, ao longo do ciclo de vida, com especial ênfase no consumo de tabaco, na alimentação, na atividade física e na gestão do stresse, é atualmente a estratégia mais custo-efetiva e sustentável para prevenir a maioria das doenças crónicas, primeira causa de peso da doença nas sociedades desenvolvidas.

Os Médicos de Família têm de ter consciência de que esta é uma das suas áreas de eleição onde precisam de ter uma ação determinante, ter uma estratégia e uma política de intervenção coerente na promoção de estilos de vida saudáveis. Os doentes olham para o seu Médico de Família como uma das mais óbvias e confiáveis fontes de informação sobre alimentação e atividade física.

Para aumentar a efetividade do aconselhamento sobre alimentação e atividade física pelo Médico de Família, este deve basear-se nos princípios da Medicina Familiar: abordagem centrada no doente, que implica recomendações personalizadas; continuidade de cuidados, que proporciona ao Médico de Família contactos repetidos ao longo do tempo, que permite o reforço do aconselhamento. Com base nestes princípios gerais, os Médicos de Família devem passar mensagens simples, adequadas ao pouco tempo de que dispõem, consistentes ao longo do tempo, tendo em conta os valores específicos de cada doente, e as barreiras conhecidas à modificação do seu estilo de vida.

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