LUÍS MIRA AMARAL

10 de Abril de 2020

A LIGAÇÃO FERROVIÁRIA À EUROPA – Há vários anos que a Espanha vem construindo linhas férreas em bitola UIC (vulgo bitola europeia), as mais recentes para tráfego misto (passageiros e mercadorias) nos Corredores Atlântico e Mediterrânico para ligação via França aos outros sete Corredores Transeuropeus. Irão coexistir com a rede de bitola ibérica lá existente, havendo interligações entre as duas redes. O mesmo deveria acontecer em Portugal com os dois eixos do Corredor Atlântico (Aveiro-Vilar Formoso-Salamanca e Sines-Lisboa-Caia-Badajoz) em bitola europeia para tráfego misto, coexistindo com a nossa centenária rede de bitola ibérica. Para Portugal assume maior interesse o eixo Norte para servir a base exportadora do Norte e Centro do país enquanto o eixo Sul, que permitiria aos espanhóis concretizar o TGV de Madrid a Lisboa e ao porto de Sines, lhe abriria a ligação aos corredores europeus. Neste contexto, assinámos com Espanha no Governo Barroso os acordos da Figueira da Foz. Depois o Governo Sócrates meteu tais projetos num grandioso pacote de investimento público para dinamizar uma economia à beira da bancarrota! Nesse pacote ia a linha Poceirão-Caia, um troço fundamental do eixo internacional Sul, para a qual já havia projeto. A seguir, o Governo Coelho veio obviamente chumbar tal pacote por razões ideológicas e de austeridade (não havia dinheiro…), acabando com a linha Poceirão-Caia (que era financiável a 85% pelos fundos europeus…) mas tendo que pagar 150 milhões de euros pelo projeto. Estas decisões rasgaram os acordos da Figueira da Foz e os espanhóis reduziram o ritmo de trazer a bitola europeia até às nossas fronteiras.  

O atual Governo, em vez de ir renegociar os acordos da Figueira da Foz, aproveita para dizer que eles desistiram da bitola europeia, o que não é verdade, e por isso não faz sentido fazermos linhas nessa bitola. Assim, vai gastar 530 milhões de euros no troço Évora-Elvas em bitola ibérica e em via única para se ligar a Espanha e quer renovar a “velha” Linha da Beira Alta em via única para a transformar numa moderna linha de mercadorias, o que pelo traçado e pelas pendentes é irrealista. Já dizia o ex-ministro Oliveira Martins que “aproveitar uma tecnologia com mais de cem anos se torna mais caro do que fazer de novo”. Será como pegar numa estrada nacional e transformá-la numa autoestrada! E como continuarão a ser linhas de via única, mudar depois as travessas para a bitola europeia (ideia do Governo) obrigará a pô-las fora de serviço por longos meses 

Com isto tudo, as exportações portuguesas para França e Alemanha (em conjunto superiores às vendas para Espanha) terão que ser entregues num porto seco espanhol para aí apanharem um corredor ferroviário europeu! E nenhuma logística conseguirá evitar o agravamento dos custos de transporte inerentes à ausência de uma ligação ferroviária direta com o coração da Europa, que permita beneficiar da livre concorrência dos vários operadores desses países, única forma de reduzir tais custos, que são relevantes devido à nossa situação periférica. 

 



Categoria: Opinião

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