LUÍS LOPES PEREIRA

A QUEDA DOS MITOS NA GUERRA E NA SAÚDE – Em apenas dois anos, depois de nos convencermos durante as últimas décadas de que as mortes passariam a ser mais provocadas por doenças crónicas (menos por pandemias) e que as guerras tradicionais não iam mais acontecer, o mundo foi surpreendido de forma brutal com a queda dessas duas convicções. As epidemias afinal vieram aparentemente para continuar e a guerra tradicional de um país invadir outro para se expandir está a acontecer, derrubando valores que considerávamos sólidos e bem construídos. As verdadeiras razões que estiveram no aparecimento da Covid-19 e da invasão da Ucrânia pelos militares russos continuarão a ser esclarecidas. Talvez a investigação histórica consiga um dia ligar factos e documentos para encontrar explicações mais plausíveis para cada uma delas, pois as informações que todos conhecemos ainda nos assaltam com dúvidas.

O relatório da OMS considera várias hipóteses para o surgimento da pandemia, umas com maior probabilidade que outras, mas não fecha o caminho para as teorias da conspiração, do benefício económico e do aproveitamento político dos governantes. Na guerra induzida pelo frustrado e violento império russo, a injustiça da invasão torna-se óbvia para quem a olha do Ocidente. Mas ficamos sem perceber o que levou um governo de uma potência militar arriscar uma guerra sem pesar convenientemente as retaliações dos outrora aliados ocidentais. Aliados esses que há 70 anos proclamam o desenvolvimento social e económico que, mais recentemente, conseguiu encantar as populações do Leste europeu, incluindo muitos russos. As retaliações económicas enfraquecerão os dois lados e ainda não temos certezas sobre o resultado do braço de ferro entre a economia e as armas.

Outro fator comum entre os dois mitos em queda é o poder da comunicação. A informação foi essencial na luta contra a pandemia, mas também criou medos e convicções que muitas vezes dificultam a implementação de planos que requerem adesão massiva da população. A inflamação comunicacional fez também o medo se instalar socialmente durante a pandemia e a própria vacina gerou negacionistas. Por sua vez, a contrainformação na guerra é uma arma poderosa que gera opiniões e reações divergentes tanto no lado ofensivo como no defensivo. A liberdade de expres-são é essencial para a defesa dos valores humanistas e democráticos. Mas não chega: a guerra na Ucrânia traz-nos a evidência de que para defender esses valores, o Ocidente terá de dirigir mais recursos para a defesa, o que poderá prejudicar a segurança social e a saúde.

As armas mais letais, químicas e biológicas, têm origem na investigação em saúde. Com o conhecimento atual tão avançado do genoma humano, ficando o mundo mais dividido após esta guerra, todos receamos o potencial desenvolvimento de armas que possam eliminar por seleção genética. Não havendo acordo para limitar as armas nucleares, estas também não estarão controladas.

Rejeito as profecias da desgraça, mas considero que tanto a pandemia como a guerra a que continuamos a assistir deverão servir para nos unirmos e focarmos na reconstrução ainda mais sólida do castelo de valores humanistas e democráticos que tantos séculos demorou a edificar. Creio que, nos últimos anos, o mundo retrocedeu nesse caminho. Não nos podemos iludir de que esses nobres valores possam estar em ascensão, pois provavelmente a maior parte da população do mundo nunca teve qualquer vivência que lhe permita acreditar ou ter esperança nos mesmos.

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