LUÍS LOPES PEREIRA

MAIS INTELIGÊNCIA (ARTIFICIAL) NA SAÚDE – Precisamos de mais inteligência na Saúde, também da artificial. Um estudo muito recente publicado por uma consultora em colaboração com a MedTech (medtecheurope.org) revela importantes conclusões sobre o benefício da Inteligência Artificial (IA) na Saúde. Esse estudo analisou o impacto socioeconómico de uma forma holística, analisando aplicações que cobrem toda a experiência dos doentes europeus e utilizadas em várias áreas da saúde. Desde as aplicações móveis, passando pelo uso de assistentes virtuais que suportam o clínico geral, os laboratórios de análises e de imagiologia, o uso de robótica para apoiar o procedimento cirúrgico até às aplicações que monitorizam a reabilitação e o estado de saúde dos doentes, a IA é cada vez mais importante para a eficácia dos sistemas de saúde. O impacto foi extensivamente medido e o estudo demonstra que a IA salva anualmente cerca de 400 mil vidas, resulta em poupanças que equivalem a 12% dos gastos totais em saúde (relativamente aos dados de 2018, significa 200 mil milhões de euros) e liberta 1,8 mil milhões de horas de trabalho aos profissionais de saúde. São resultados que revelam, sem dúvida, que temos de apostar mais na recolha e no cruzamento de dados para melhorar a eficiência do sistema de saúde em Portugal. Mas há barreiras que terão de ser ultrapassadas para a adoção de mais IA na Saúde. No que toca à recolha de dados, teremos de utilizar soluções mais integradoras de forma a suprir a falta de interoperabilidade dos sistemas de recolha de dados que existem no nosso sistema de saúde, não só no Serviço Nacional de Saúde como em todos os prestadores privados. A qualidade, a privacidade e a cibersegurança são aspetos importantes a ter em conta nesse processo. Por outro lado, tem de haver um maior alinhamento da legislação e da regulação relativas a este mercado, ajustado à velocidade do desenvolvimento de soluções que utilizam IA. Há um projeto europeu (European Health Data Space) que requer que muitos hospitais atualizem os seus sistemas informáticos de forma a garantir a compatibilidade nos países e entre países. Também os profissionais de saúde têm de adaptar os seus procedimentos a esta realidade, necessitando de mais treino para tal. E os sistemas de saúde terão de fazer o shift do cuidado para a prevenção, para o que a IA se torna uma necessidadeNo que respeita à sociedade, precisamos de mais confiança nestas tecnologias, que pode ser dada por quem as usa e sabe dos benefícios que a evidência demonstra. A liderança política terá de saber apostar e envolver todos os intervenientes que beneficiam da IA, incluindo o cidadão comum que com mais conhecimento se pode empoderar e ser elemento ativo em todo o processo de saúde, passando pela prevenção, diagnóstico e tratamento das suas doenças. 

Concluindo, creio que a decisão de optarmos por introduzir mais IA na saúde consiste, em si mesmo, um desafio à inteligência, pois tem de ser planeada e executada de forma integrada. A introdução de aplicações nos sistemas de saúde que servem apenas para mostrar serviço e que surgem como uma reação a um fenómeno crítico, não são um bom exemplo da inteligência que precisamos. Podem eventualmente ter o lado positivo de fazer com que a sociedade conheça melhor estas soluções e as entenda melhor no futuro. 

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