LUÍS LOPES PEREIRA

9 de Abril de 2020

A NOVA GUERRA DA SAÚDE – Dos portugueses que viveram em tempo de guerra, ainda lhes está na memória a guerra nas ex-colónias. Também ficávamos em casa e era bom presságio ouvir tiros e morteiros longe das nossas casas, pois era sinal de que a guerra estava longe. Saíamos apenas para o essencial, as compras do dia a dia, passar no local de trabalho para justificar a nossa sobrevivência, pois além da sobrevivência física é o trabalho que nos sustenta. Não havia possibilidade de trabalhar a partir de casa. Mas lembramo-nos da vivência dos supermercados sem produtos e as filas de espera para o arroz e para o leite a que cada um tinha direito, mas nem todos tinham acesso. Lembramo-nos de hospitais de campanha onde se decidia entre a vida e a morte. Lembramo-nos dos vizinhos, amigos e conhecidos que eram vítimas dessa guerra e se ia sabendo de boca em boca ou pela rádio, pois não havia televisão em África. São memórias da minha infância que pensei não reviver jamais. A guerra era a destruição de edifícios, além da morte das pessoas. A guerra fazia-se com armas de fogo, e muitos cidadãos de todas as idades eram chamados para participar. Hoje vivemos tempos de guerra. Uma guerra igual, mas em que todos somos soldados da paz. Os tiros que ouvimos são disparados pelos nossos corpos, através de uma arma que é mortal apenas para os mais indefesos. Mas somos todos nós que os disparamos, quando somos maus soldados. Um vírus que habita dentro dos nossos corpos e nem sabemos se, nem quando, em nós reside. Potencialmente pode existir em qualquer momento sem nos darmos conta. Mas temos que ter em consciência que só ficando em casa, protegidos de nós próprios, poderemos impedir que o vírus atinja outros. Ou seja, é como que uma guerra interior, de consciência. A paz só virá se nós não sairmos para a rua disparando contra os outros, contra os indefesos. Tal como qualquer guerra, não sabemos quando vai acabar. Os cuidados de saúde, enquanto direitos dos cidadãos, nasceram em tempos de guerra. Os seguros e os sistemas de saúde, com Bismark e com Beveridge, nasceram durante e após guerras. Mas nunca pensaram em evitar o fenómeno da guerra. Não nasceram assim, nasceram a partir dela, por necessidade. Tiveram muito êxito sem dúvida, mas nunca tiveram tempo para evitar as epidemias que, por vezes, se transformam em pandemias. A saúde de que se fala nunca é a saúde, é apenas a doença. Ou seja, os sistemas atuam quando não há saúde. 

Hoje precisamos de ventiladores, uma tecnologia complexa que demora muito tempo a instalar, pois precisa de ser montada, treinada e existir em estado de alerta. Sempre. Estamos na cauda da Europa em termos de camas de cuidados intensivos preparadas para o COVID-19, a arma mortífera que entra dentro de nós. Também precisamos de repente de produtos básicos que a escala requerida, de repente, não permite o ajustamento produtivo das indústrias que as fabricam. Tombarão muitos indefesos. Nós, soldados entrincheirados em casa, vamos ganhar a guerra. Não sabemos quando. Conscientemente estamos numa guerra, na qual as batalhas diárias se fazem com a prevenção, evitando que a arma se apodere de nós, lavando frequentemente as mãos entre outros cuidados que nunca são poucos. Cada um de nós é o inimigo do próximo. Da próxima vítima.  

Será que é desta que aprendemos que a saúde se faz pela prevenção? Sabemos agora que temos que estar preparados antes que a guerra rebente dentro ou fora de nós e mate os mais próximos e mais indefesos. Vivemos a batalha do dia a dia, mas temos a consciência de que temos que nos preparar para a próxima guerra, pois para esta ainda não estamos preparados. Infelizmente. 



Categoria: Opinião

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