JOSÉ MANUEL CONSTANTINO

LUTANDO CONTRA O PRECONCEITOO desporto em Portugal, com exceção do futebol, teve sempre pouca relevância política, salvo naturalmente os sucessos desportivos internacionais nas modalidades que, nesses momentos, ocupam o espaço mediático e a atenção política. 

A história do desporto nacional evidencia que foi um produto importado nos finais do século XIX e que o carácter periférico da nossa situação geográfica aliado a um fraco grau de desenvolvimento do país não ajudaram às influências desportivas que marcaram a Europa na primeira metade do século seguinte. Na altura, a industrialização e as suas consequências no crescimento urbano e na organização do trabalho deram lugar a formas de ocupação do tempo livre, onde as competições desportivas passaram a atrair públicos e praticantes cujas origens de classe eram sobretudo oriundas da burguesia aristocrática, os chamados “amadores”.  Só mais tarde, com a expansão do Olimpismo e do “estado social,” o desporto passou a ter um carácter mais interclassista e, com a profissionalização das carreiras desportivas, a servir de elevador social para os desportistas mais talentosos oriundos das “classes populares.” 

UM FENÓMENO GLOBAL – O século XX assistiu à afirmação do desporto como um fenómeno global, numa escala verdadeiramente planetária, geradora de uma economia própria. A imprensa ocupou-se dele, promoveu-o, criou o seu espaço próprio entre os meios de comunicação social, onde a sua presença chegou a ser dominante nos alinhamentos noticiosos e impulsionou muitas competições desportivas. A reconstrução europeia no pós-guerra sedimentou uma densidade desportiva na Europa que já lhe era anterior, mas cuja influência em Portugal chegou sempre de forma tardia e precária, atendendo o grau de desenvolvimento do país e ao facto de não mobilizar a atenção das elites políticas e culturais. 

O período final da Monarquia, com o reinado de D. Carlos, foi uma exceção a este estado geral, mas o período republicano que se lhe seguiu, pela instabilidade criada, não ajudou ao fortalecimento das organizações desportivas apesar de muitas delas terem nascido naquele período. O Estado Novo acentuou um afastamento progressivo dos ideais desportivos chegando ao ponto de ser proibido o seu ensino nas escolas. Confinado a uma coisa menor e prevalecendo os ideais higienistas em defesa da purificação da raça, o associativismo desportivo não apenas foi desestimulado como, em alguns casos, combatido e transformado, por via disso, num espaço de resistência à ditadura. 

RECUPERAR O TEMPO PERDIDO – Os ideais abrilistas procuraram recuperar o tempo perdido em busca de um novo Desporto num país novo e deixaram como legado a assunção do Desporto como um direito constitucional dando fulgor ao desporto popular que brotou das coletividades e clubes desportivos locais emergentes do livre associativismo consagrado na Constituição de 1976, suportado, ainda hoje, pela ação preponderante do poder autárquico. O certo é que Portugal nunca assumiu a obrigação constitucional na sua ampla dimensão e deixou que ela fosse mais um direito proclamatório do que um direito exercido. As associações e coletividades desportivas, assumidas na Lei Fundamental como parceiros do Estado para a promoção do desporto, em raras ocasiões saíram da sua condição periférica para serem efetivamente reconhecidas como parceiros na construção das políticas públicas e na implementação de uma visão de futuro para o país desportivo. 

 RELAÇÃO COM AS ELITES O desporto manteve-se sempre afastado das elites políticas, e a partir de determinado momento a própria academia, onde havia entrado, ultrapassando um conjunto de atávicos obstáculos, optou pela valorização do trabalho e da investigação em torno das ciências da saúde, relegando para um plano secundário as do desporto. Exceção a este quadro geral pode ser reconhecida ao futebol que capturou uma parte das elites políticas que se abrigaram à sua sombra numa relação nem sempre transparente e valorizante. A verdade é que, para muitos dos nossos governantes, o desporto nunca entrou nos seus percursos individuais ou familiares. E como não é possível apreciar a literatura não lendo, ou a pintura não frequentando exposições, também não é possível entender o desporto quem não o praticou ou admirar o espetáculo desportivo quem não o frequenta. O resultado é uma perceção cultural impregnada de um enorme défice quanto ao valor social que o desporto tem para uma comunidade com inevitáveis consequências no âmbito das políticas para o desporto. 

A reversão desta situação não é impossível, mas é difícil e de progressão muito lenta. É certo que Portugal viveu no passado grandes transformações a partir de exercícios de políticas públicas exemplares. Os casos mais evidentes foram, porventura, no domínio da Saúde com o Serviço Nacional de Saúde com a ação pioneira de António Arnaut e mais tarde, no domínio da Ciência, a ação do ministro José Mariano Gago, que alteraram radicalmente o quadro das políticas públicas para os respetivos setores com óbvias vantagens para Portugal. Resta-nos ter esperança de que, um dia, algo semelhante possa ocorrer com o Desporto. 

Seria uma boa surpresa! 

2 Replies to “JOSÉ MANUEL CONSTANTINO”

  1. Grande texto a constetualizar a verdade do desporto em Portugal, vindo de uma personagem com o currículo do professor não me admira, mas sinto-me honrado e privilegiado por em determinado momento da minha vida ter convivido com o professor Constantino… todos os sucessos desportivos para o meu amigo .🏊‍♀️🏋️‍♀️

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