JORGE GARCIA

“PORTUGAL E O FUTURO” no turismo e imobiliário. Isto às vezes parece que anda tudo ligado. Os nascidos antes e durante a década de 60 do século passado leram ou pelo menos ouviram falar na importância do livro Portugal e o Futuro, de António de Spínola, na nossa história contemporânea.

António de Spínola foi um líder militar que, após 13 anos de guerra do Ultramar, defendeu uma solução política como única saída para o confito.A publicação do seu livro foi um dos aceleradores da mudança de regime político e subsequente declaração de independência dos territórios ultramarinos. Nos últimos anos, vários autores publicaram reflexões acerca do management e gestão 3.0, às quais a larga maioria dos gestores e seus acríticos subordinados se mostraram indiferentes. Escudaram-se nos modelos de gestão que dominam e testaram ao longo da sua carreira, focados em resultados de curto prazo, exercendo o controlo operacional através de siglas e indicadores de performance tornados fins e não meios para chegar a uma meta.
DISRUPÇÃO TECNOLÓGICA
Nos últimos anos, no mercado turístico e imobiliário, assistimos ao início de uma disrupção tecnológica, permanecendo o tema como importante e não urgente, particularmente na maioria das empresas imobiliárias. Nos últimos anos, no contexto internacional, os líderes ocidentais foram alimentando uma ilusão, o desenvolvimento económico chinês seria suficiente para integrar essa potência na ordem internacional estabelecida. Nos últimos anos, a responsabilidade social das empresas e os impactos ambientais associados às suas atividades tornaram-se relevantes na escolha dos consumidores, mas o imperativo do lucro operacional imediato manteve-se dominante. E eis que uma pandemia à escala global, de forma abrupta, veio acelerar a disrupção anunciada e que por inércia, temor ou incapacidade, foi sendo adiada. Mas a disrupção tornada efetiva por uma variável não controlável e devastadora deverá traduzir-se em inovação disruptiva transversal às empresas e a toda a sociedade. É certamente tecnológica, mas terá impacto na comunicação e modelos de gestão das empresas, na oferta de serviços turísticos e produtos imobiliários, na relação das empresas com os seus consumidores internos e externos, na ordem internacional.
ESTATUTO DE SUPERPOTÊNCIA
No pós-Covid, inseridos numa economia globalizada e integrando a União Europeia, iremos assistir a uma nova “guerra fria” política, militar, económica e tecnológica, entre os EUA e a China.A China de Xi Jinping ambiciona a liderança global e assumiu o seu estatuto de superpotência. Militarmente continuará a exercer pressão, para assegurar a transição para a sua esfera de influência de um vasto território asiático que ainda não domina. O gigante tecnológico Huawei prosseguirá como motor e bandeira da afirmação do desenvolvimento tecnológico chinês, ambicionando a liderança global no 5G e na Inteligência Artificial.
No âmbito económico, prosseguirá na sua estratégia de condicionamento da Europa, tornando-se parceiro económico de referência e acionista de empresas estratégicas: banca, logística, energia e saúde. Com os EUA cada vez mais distantes, vamos olhando com ceticismo e alguma esperança para a resposta europeia, sabendo que dependemos do caminho que a Europa irá escolher.
MUDANÇA DE FOCO
A disrupção no management e gestão, apesar da resistência à mudança, é inevitável. Para quem viveu durante anos focado na hierarquia e nos cargos, não é fácil passar o seu foco para o com- portamento e relacionamento entre as pessoas. As empresas são pessoas que interagem em rede com os seus clientes internos e externos. Existe um novo eixo referencial com base na autonomia individual e das equipas que se formam e na capacidade de se organizarem em busca de objetivos e metas estabelecidas. O foco do management passará a ser nas pessoas e no seu bem-estar. Se as pessoas se sentirem bem e forem inspiradas pela liderança, os resultados surgirão com naturalidade. As estruturas organizacionais terão de se adaptar.
NOVA ABORDAGEM DA GESTÃO
A visão da gestão 3.0 está no empoderamento de pessoas e equipas, no desenvolvimento de competências e na melhoria contínua. Esta nova abordagem da gestão é tão inovadora quanto a visão de Taylor do início do século passado, que ainda perdura nalgumas práticas baseadas exclusivamente na eficiência e minimização do erro humano. O compromisso e a conexão emocional das pessoas com o trabalho que fazem são mais convincentes e inspiradores que eloquentes discursos acerca de propósitos e resultados. O período de pandemia expôs as limitações dos gestores exclusivamente preocupados com a produtividade. No turismo como no imobiliário, iremos prosseguir no caminho da simplicidade e o luxo será cada vez mais associado a conforto e exclusividade do que a sumptuosidade. A sustentabilidade dos produtos turísticos e imobiliários será um fator relevante no momento da tomada de decisão.A eficiência energética, a reutilização de recursos, o isolamento térmico e acústico, os sistemas de aquecimento de ambiente e águas, permitirão reduzir as faturas de água, gás e eletricidade, mas sobretudo serão um reflexo da crescente consciencialização ambiental.
Nos mercados turístico e imobiliário, assistiremos à modernização dos modelos de negócio pela integração do digital com o físico, a uma cultura empresarial mais colaborativa, transparente e com maior responsabilização social. As empresas, os microempresários que lhes prestam serviços e todos os que participam das cadeias de valor desses mercados estão hoje mais preparados para enfrentar as adversidades resultantes da pandemia. Portugal mantém incólumes todos os pontos fortes que atraíram turistas, investidores e compradores de imóveis nos últimos anos. O nosso futuro já começou.

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