ISABEL MEIRELLES

O FIM DA INOCÊNCIA EUROPEIAA Europa acordou tarde. Durante décadas, confundiu conforto com segurança, comércio com paz, interdependência com prudência e dependência com diplomacia. 

A Europa ergueu direitos, tribunais, moeda e prosperidade; mas esqueceu-se de que a História não se revoga por regulamento, nem a geopolítica se suspende por deliberação. 

A guerra na Ucrânia não é apenas uma tragédia ucraniana, nem sequer uma guerra europeia de fronteira. É a impugnação violenta da ordem nascida depois de 1945 e consolidada depois de 1989. É a recusa da soberania dos pequenos Estados, a tentativa de substituir o direito pela força. Em Kiev, Kharkiv ou Odessa, decide-se se a Europa aceita que um Estado redesenhe o mapa de outro pela artilharia e pelo terror. 

Durante demasiado tempo, uma parte da Europa acreditou que a Rússia poderia ser domesticada pelo gás, pelo investimento e pelas cimeiras. O comércio seria a vacina contra a guerra, os oleodutos seriam pontes, a dependência energética seria estabilidade. Foi um erro caro. A energia, que deveria ser instrumento económico, revelou-se arma estratégica. O gás tornou-se pressão política, as infraestruturas críticas passaram a ser alvos possíveis, e a segurança deixou de caber nos quartéis e está agora nos portos, nos satélites, nas redes elétricas, nos dados. 

Aliança Atlântica 

É por isso que a NATO voltou ao centro da política europeia. Durante anos, muitos trataram a Aliança Atlântica como herança incómoda da Guerra Fria. Hoje regressa como aquilo que sempre foi, ou seja, a arquitetura militar sem a qual a liberdade europeia ficaria exposta. A Suécia e a Finlândia entraram na NATO porque perceberam que a neutralidade, quando o vizinho é agressivo, pode deixar de ser virtude e passar a ser vulnerabilidade. 

Mas nenhuma aliança é saudável quando uma das partes se habitua a delegar na outra a parcela mais dura da sua própria defesa. A política americana tornou-se mais volátil e o Indo-Pacífico absorve cada vez mais atenção de Washington. A resposta europeia tem de ser a responsabilidade. Investir em defesa não é militarismo, é prudência, e reforçar a indústria militar não é belicismo, é condição material da dissuasão. 

O problema é que a Europa tem uma relação difícil com o poder. Defende a dignidade humana, a democracia liberal, o Estado de direito e a soberania dos povos, mas esses princípios precisam de tribunais, mas também de fronteiras protegidas, inteligência partilhada, energia segura e capacidade de resposta. 

Autonomia estratégica 

O regresso da História não se limita ao Leste europeu. No Ártico, o degelo abre rotas e aproxima interesses. No Médio Oriente, cada crise no Golfo ou no Estreito de Ormuz recorda que a prosperidade europeia depende de caminhos que não controla. O petróleo, o gás, os contentores e os minerais críticos viajam por corredores vulneráveis. Uma Europa sem reservas estratégicas, sem autonomia energética e sem política externa coerente é uma potência económica com nervos expostos. 

Há, por isso, uma pergunta que já não pode ser adiada: quer a Europa ser sujeito ou objeto da História? Quer sentar-se à mesa onde se decide a ordem internacional, ou contentar-se em comentar as decisões alheias com comunicados graves e impotentes? 

A autonomia estratégica não significa hostilidade aos Estados Unidos, nem isolamento, nem ilusão de autossuficiência. Significa capacidade de agir quando os interesses europeus estão em causa, capacidade de escolher, capacidade de resistir. 

Portugal não está fora desta discussão. Ser país atlântico, europeu e lusófono não é nota de rodapé, antes é posição geopolítica. Um país pequeno não se defende pela ilusão da irrelevância, mas pela inteligência das suas alianças. 

Cultura de responsabilidade 

A grande dificuldade será democrática. As sociedades europeias, envelhecidas e habituadas à paz, não aceitarão facilmente a ideia de que a defesa tem custos. Cada euro gasto em equipamento militar parecerá faltar à saúde, à educação, à habitação ou às pensões. Essa tensão é real. Mas não há Estado social protegido sem Estado seguro. A prosperidade europeia assentou numa condição que foi a ausência de guerra no seu território. 

A Europa precisa de uma pedagogia da segurança. Não uma retórica do medo, mas uma cultura de responsabilidade.Uma sociedade desinformada é mais fácil de manipular, uma economia dependente é mais fácil de chantagear e uma democracia cansada é mais fácil de intimidar. A boa notícia é que a Europa ainda tem recursos formidáveis, riqueza, conhecimento, indústria, ciência, tecnologia e integração pacífica. O que lhe falta não é poder potencial, mas é vontade coordenada. 

O fim da inocência europeia não tem de significar o fim do projeto europeu, antes pode ser a sua maturidade.  A Europa nasceu da recusa da guerra entre europeus, mas talvez tenha agora de se reinventar como comunidade capaz de impedir que a guerra volte a governar o destino dos europeus. 

A paz continuará a ser o maior valor europeu, mas é uma arquitetura exigente, feita de direito, força legítima, diplomacia e dissuasão. A Europa, que não pagar o preço da sua defesa, acabará por pagar o preço da sua vulnerabilidade. 

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