ISABEL MEIRELLES

O ESTREITO DE ORMUZ: HISTÓRIA, PODER E O ECO DE PORTUGAL NAS ROTAS DO MUNDO – Entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã abre-se uma garganta marítima estreita, austera e decisiva para o destino económico do planeta, o Estreito de Ormuz. Com cerca de cinquenta quilómetros no ponto mais largo e canais de navegação ainda mais estreitos, este corredor de água tornou-se, ao longo de séculos, um dos pontos geoestratégicos mais sensíveis do globo.

 Hoje, como ontem, quem domina ou ameaça Ormuz influencia não apenas os equilíbrios regionais do Médio Oriente, mas o próprio pulso energético da economia mundial.

Calcula-se que cerca de um quinto do petróleo consumido globalmente atravesse diariamente estas águas. Os grandes produtores do Golfo, Arábia Saudita, Irão, Kuwait, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Qatar, dependem quase inteiramente desta passagem para escoar os seus hidrocarbonetos.

Em termos estratégicos, Ormuz funciona como uma válvula da economia mundial, ou seja, se se fecha, o sistema sente imediatamente a pressão. Todavia, a importância do estreito não nasceu com o petróleo. Muito antes da era dos petroleiros e das cotações do Brent, Ormuz era já um nó essencial das rotas comerciais que ligavam a Pérsia, a Índia e o mundo árabe. Por ali transitavam especiarias, tecidos, pérolas, cavalos e metais preciosos.

Presença portuguesa em Ormuz

Foi precisamente esse valor comercial que despertou a atenção de um pequeno reino europeu, Portugal, situado no extremo ocidental da Europa. Em 1515, no auge da expansão marítima portuguesa, Afonso de Albuquerque conquistou a ilha de Ormuz.

O feito inseria-se numa estratégia clara da Coroa portuguesa de controlar os grandes estrangulamentos do comércio marítimo entre o Índico e o Médio Oriente. Goa, Malaca e Ormuz formavam, assim, uma espécie de triângulo estratégico destinado a dominar as rotas das especiarias.

A presença portuguesa materializou-se na construção de uma poderosa fortaleza, cujas ruínas ainda hoje se erguem na ilha, e no estabelecimento de um sistema de controlo naval que permitia taxar e supervisionar o tráfego comercial da região.

Durante mais de um século, Ormuz tornou-se uma peça central do chamado Estado da Índia, estrutura administrativa que organizava o império português no Índico. A posição, porém, não seria eterna. Em 1622, uma aliança entre o Xá persa Abbas I e forças inglesas da Companhia das Índias Orientais expulsou os portugueses da ilha.

O episódio marcou não apenas o declínio da presença lusa no Golfo Pérsico, mas também o início de uma nova fase de competição entre potências europeias pelo domínio das rotas orientais.

Relevância estratégica

No presente, o estreito mantém, talvez mais do que nunca, a sua relevância estratégica. Cerca de vinte milhões de barris de petróleo por dia cruzam esta passagem, bem como grande parte do gás natural liquefeito exportado pelo Qatar e qualquer perturbação neste fluxo repercute-se imediatamente nos mercados internacionais, elevando preços, gerando volatilidade e alarmando governos.

É precisamente por isso que Ormuz surge frequentemente no centro das tensões entre o Irão e os seus rivais regionais e ocidentais. A República Islâmica controla a margem norte do estreito e tem reiteradamente insinuado a possibilidade de bloquear a navegação em resposta a sanções económicas ou pressões militares.

Embora um bloqueio total seja difícil de sustentar a longo prazo, mesmo a ameaça de interrupção basta para alterar o cálculo estratégico de inúmeras potências.

Os Estados Unidos mantêm uma presença naval significativa na região, precisamente para garantir a liberdade de navegação e, paralelamente, países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos procuram desenvolver rotas alternativas de exportação que evitem o estreito, como oleodutos que conduzem ao Mar Vermelho ou ao Golfo de Omã. Contudo, nenhuma dessas soluções substitui plenamente o papel de Ormuz.

História e geopolítica

O Estreito de Ormuz ilustra, de forma quase exemplar, a persistência da geografia na política internacional. As mesmas águas que no século XVI atraíram os navegadores portugueses continuam hoje a concentrar rivalidades, ambições e receios globais.

Portugal já não projeta poder no Índico como outrora, mas a memória histórica permanece gravada nas muralhas da antiga fortaleza e nos relatos da expansão marítima. Ormuz recorda-nos que as rotas do comércio moldaram impérios, desencadearam conflitos e definiram equilíbrios de poder durante séculos.

No mundo contemporâneo, dominado por mercados energéticos e cadeias logísticas globais, o estreito continua a ser um dos lugares onde a história e a geopolítica se entrelaçam de forma mais evidente e, talvez seja precisamente essa continuidade, entre o passado das caravelas e o presente dos superpetroleiros, que faz de Ormuz não apenas um ponto no mapa, mas um verdadeiro eixo do mundo.

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