ISABEL MEIRELLES

EUROPA SEM ESCUDO: AUTONOMIA OU DEPENDÊNCIA? 

A arquitetura de segurança do continente europeu encontra-se num daqueles momentos raros em que a História deixa de ser mera cronista e passa a ser protagonista. 

O debate sobre uma defesa própria da União Europeia deixou de pertencer ao domínio das especulações académicas para se instalar no centro da reflexão estratégica. Dois fatores catalisadores precipitaram esta mutação. Ou seja, por um lado, as reiteradas posições de Donald Trump favoráveis a um desinvestimento norte-americano na NATO, e por outro, a advertência dramática de Volodymyr Zelensky, segundo a qual o mundo já terá ingressado numa terceiraguerra mundial de natureza híbrida e difusa. 

A interseção destas duas narrativas, a retração estratégica americana e a perceção de escalada global produzem uma inquietação fundamental, a saber se poderá a Europa continuar a depender de uma garantia externa cuja solidez política já não é axioma. 

Durante mais de sete décadas, a defesa do continente assentou num paradigma simples, de que o escudo nuclear e convencional americano constituía o garante último da estabilidade. A eventual erosão dessa garantia não representa apenas um ajustamento tático, antes significa a revisão de um dos pilares existenciais da ordem europeia do pós-guerra. 

Neste contexto, delineiam-se duas vias conceptuais. A primeira preconiza a edificação de uma defesa europeia plenamente autónoma, isto é, capaz de operar independentemente de alianças externas, com comando próprio, indústria militar integrada e doutrina estratégica unificada. A segunda propõe um modelo híbrido em que a Europareforçaria substancialmente as suas capacidades, mas preservando a Aliança Atlântica como arcaboiço estrutural, funcionando a defesa europeia como pilar regional de uma arquitetura mais vasta. 

Modelo de autonomia 

A opção autonomista possui sedução teórica evidente. Uma potência económica de dimensão europeia, argumenta-se, não pode permanecer estrategicamente tutelada sem incorrer numa contradição sistémica. A autonomia permitir-lhe-ia agir segundo interesses 

próprios, decidir intervenções sem constrangimentos externos e projetar estabilidade no seu entorno geopolítico. Acresce que a integração militar poderia racionalizar gastos, eliminar redundâncias nacionais e fomentar uma base industrial tecnológica de escala continental. 

Todavia, a mesma via encerra dilemas profundos. A defesa constitui o núcleo duro da soberania estatal e transferi-la para instâncias supranacionais exige um grau de confiança política e identidade estratégica que a Europa ainda não consolidou plenamente. Persistem divergências substanciais entre Estados quanto à perceção de ameaças, à disposição para o uso da força e ao nível de despesa militar aceitável. Sem convergência nestes três vetores, qualquerarquitetura comum corre o risco de existir mais no plano declarativo do que no operacional. 

 Modelo híbrido 

Já o modelo que preserva a NATO como pilar apresenta vantagens pragmáticas. Mantém a dissuasão nuclear e a profundidade logística americana, ao mesmo tempo que incentiva a Europa a reforçar a sua responsabilidade defensiva. Trata-se, sobretudo, de uma solução compatível com a tradição gradualista da integração europeia. 

Contudo, a sua viabilidade depende de uma premissa incerta que é a continuidade do compromisso estratégico dos Estados Unidos. Se esse compromisso oscilar ao sabor de ciclos políticos internos, a dependência transforma-se em vulnerabilidade estrutural. 

A advertência de Zelensky de que a ideia de que a guerra mundial já se desenrola sob formas não declaradas, envolvendo ciberataques, sabotagem económica, desinformação e conflitos por procuração, reforça a urgência deste debate. Num cenário de confrontação sistémica difusa, a segurança deixa de ser um estado estático e passa a ser um processo permanente de resiliência. A defesa europeia, seja autónoma seja integrada numa aliança mais ampla, teráinevitavelmente de abranger domínios que transcendem o campo militar clássico como infraestruturas críticas, cadeias de abastecimento, espaço, tecnologia digital e soberania energética. 

Integração europeia 

O verdadeiro dilema, portanto, não reside apenas na escolha entre autonomia e dependência, mas na determinação do grau de integração política que os europeus estão dispostos a aceitar. Uma defesa comum eficaz exige decisão rápida, comando centralizado e financiamento robusto, elementos que implicam transferência real de poder para o nível europeu. A questão decisiva não é técnica, mas filosófico-política de saber até que ponto as nações europeias estão prontas para conceber a sua segurança como destino partilhado e não como prerrogativa individual. 

Se a História recente ensina algo, é que a integração europeia avança menos por entusiasmo do que por necessidade. Crises sucessivas financeiras, sanitárias e geopolíticas têm funcionado como catalisadores de passos que antes pareciam impensáveis. Assim, a eventual retração americana e a perceção de um ambiente internacional crescentemente conflituoso podem vir a desempenhar o papel de forças propulsoras de uma nova etapa, a da maturidade estratégica europeia. 

Em última análise, a escolha entre uma defesa autónoma e uma defesa ancorada numa aliança mais vasta não será decidida por tratados ou discursos, mas pela pressão dos acontecimentos. 

A História raramente pergunta se estamos preparados e apenas se limita a exigir que o estejamos. 

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