ISABEL MEIRELLES

10 de Fevereiro de 2020

MUNDO MUÇULMANO – Islão, Religião e Realidade. O mundo muçulmano tornou-se hoje numa equação primordial no planeta. Questões contemporâneas muito complexas, por vezes de índole geopolítica, social, económica e militar, encontram os seus prós e contras no coração da religião muçulmana e dos povos que a reivindicam.  É impossível compreender a história, a formação e o futuro de territórios imensos de metade do Norte de África até ao Próximo e Médio Oriente, mas também no Extremo Oriente e na Europa, sem integrar a dimensão muçulmana. Portugal é um exemplo entre muitos outros. Fundada na primeira metade da Idade Média, no coração da Península Arábica, a religião muçulmana não parou de estender a sua influência, sobretudo graças à demografia galopante dos países que lhe pertencem. Estima-se que um quarto da população do mundo é islâmica, sendo que os muçulmanos são a segunda maior religião do mundo atrás do cristianismo e à frente do hinduísmo, mas estes dados irão muito rapidamente evoluir nas próximas décadas. A compreensão do mundo muçulmano é complicada pela existência de muitos particularidades nacionais e regionais. Entre a Indonésia, o maior país muçulmano do mundo, em número de praticantes, e Marrocos, por exemplo, as diferenças são grandes, sejam elas institucionais ou linguísticas. Os regimes políticos não têm nada em comum e a prática do árabe, a língua sagrada do Islão, não é a mesma em todo o lado. A complexidade do Islão reside também na existência de várias correntes que opõem os fiéis, por vezes de forma muito radical, sendo algumas quase confidenciais e que respeitam apenas a minorias ínfimas. Contudo, as duas principais correntes mobilizam a grande maioria dos muçulmanos. 

As principais correntes – A primeira destas correntes agrupa os sunitas, sendo a mais importante de todas e que reúne 85% dos muçulmanos, assumindo disseminação planetária. Com os seus lugares sagrados em Meca ou Medina, a Arábia Saudita é o seu país de referência. Toda a África ao norte do equador, do Sudão ao Mali e da Mauritânia à Tunísia, é sunita, sendo que o Egito é, neste contexto, um país que desempenha um papel de charneira. Outros países-chave, da Turquia à Indonésia, passando pelo Afeganistão e Paquistão, são igualmente sunitas, sendo o seu poder considerável à escala do mundo muçulmano. E, no entanto, este poder incontestável é contrariado pelos seus oponentes seculares xiitas. Estes encontram-se principalmente situados num território mais pequeno e limitado a dois países, o Irão e o Iraque, bem como a uma pequena parte no Sul do Azerbaijão. As coisas complicam-se ainda mais, quando sabemos que as minorias xiitas e sunitas existem em países adquiridos pela corrente oposta. Por exemplo, há uma minoria sunita muito ativa no Iraque xiita e uma minoria xiita na Arábia Saudita, que muitas vezes são alvo de vexame, discriminação e até de perseguição. Mas não é impossível que, dependendo dos casos, sejam estabelecidos equilíbrios, ainda que frágeis, entre as duas correntes e que um modus vivendi seja encontrado. 

Origens e opções diferentes – Mas qual é a origem destas duas correntes, sunitas e xiitas, e por que razão elas se opõem tão ferozmente? Todos os filhos de Maomé, o fundador da religião muçulmana, faleceram na infância e quando o profeta morreu em 632, as rivalidades explodiram, com os dois clãs a reivindicar a legitimidade para lhe suceder.  O primeiro clã foi liderado pelo seu primo Ali, que se tornou seu genro, quando casou com Fátima, uma das quatro filhas do profeta. Muito perto de Maomé ao longo de sua vida, Ali dá aos xiitas a legitimidade do sangue e do vínculo familiar.  

O segundo clã está sob a autoridade de Abu Bakr, um homem do povo, um companheiro de sempre de Maomé. Ao designá-lo, os sunitas restabelecem os valores do grupo e retornaram às tradições tribais. A maioria apoiou Abu Bakr, que se tornou, assim, o primeiro califa. A partir daí, os dois clãs rivais tomam opções diferentes para organizar as suas comunidades. Assim, os sunitas consideram o Alcorão, o livro sagrado, como uma obra divina e o imã, o chefe religioso, serve como intermediário entre Alá e os fiéis, como um guia espiritual e temporal. Esta é a primeira característica fundamental em que o chefe de Estado sunita tem autoridade espiritual e política. O rei de Marrocos ou o rei da Arábia Saudita são dois exemplos desta dupla faceta. Os xiitas, por outro lado, fazem do imã um descendente direto da família de Maomé. Ele deve a sua autoridade a Alá, o deus dos crentes, mas o seu poder termina aí. É por isso que nos países de maioria xiita o poder político é separado do poder religioso, este representado por um clero altamente estruturado. O Irão é o exemplo acabado desta dualidade, com um líder religioso muito poderoso, o guia da revolução, e um presidente da república.   

A realpolitik levou estas duas principais correntes muçulmanas a muitos arranjos com a sua doutrina e com os seus oponentes. Assim, por exemplo, o Irão xiita apoia o Hamas palestiniano sunita na sua luta contra Israel, tornando-se cada país num caso único e irrepetível, em que alianças são feitas e desfeitas em função da correlação de forças do momento. 

 



Categoria: Opinião

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