ISABEL MEIRELLES

LÍBANO: A DEFUNTA PARIS DO MÉDIO ORIENTE Saad Hariri, primeiro-ministro libanês, apresentou a sua demissão, pensando que assim iria pôr termo às manifestações nas ruas de Beirute.  

 

Tudo começou com um anúncio feito pelo Governo no sentido de taxar as chamadas de WhatsApp, pretexto que foi o rastilho num país explosivo e onde os equilíbrios são extraordinariamente frágeis, os conflitos perigosos e as soluções precárias. Acantonado entre o Mediterrâneo, Israel e a Síria, o Líbano ocupa há séculos, uma posição chave no Médio Oriente. O país atual foi criado após a Primeira Guerra Mundial, quando as grandes potências aliadas partilharam entre si os restos do Império Otomano pró-alemão, e sob o controlo da França, o Líbano obteve a independência em 1943. A Constituição Libanesa é uma criação muito original que respeita as diferentes componentes da população e que inventou a figura do comunitarismo político. Ou seja, as diferentes comunidades estão representadas de forma equitativa no aparelho do Estado, sendo tradicionalmente o Presidente da República cristão maronita, o primeiro-ministro muçulmano sunita e o presidente do Parlamento muçulmano xiita. Em tese, a ideia era sedutora em meados do século XX, mas hoje a realidade é completamente diferente, antes de mais porque a população muçulmana é neste século mais importante e, sobretudo, porque as relações entre sunitas e xiitas são cada vez mais tensas no Próximo e Médio Oriente. 

 Ingerências estrangeiras no país 

A situação tornou-se ainda mais complexa por causa das fortes ingerências estrangeiras no país. Assim, a França protegeu, desde sempre, os cristãos maronitas, a Arábia Saudita sunita exerce uma influência direta através do primeiro-ministro, que não decide nada sem o consentimento de Riad, e também a Turquia que concorre os sauditas, sobretudo no norte do Líbano onde os manifestantes agitaram bandeiras turcas. Do lado xiita o poderoso partido do Hezebollah representa os interesses do Irão, com forte implantação no Sul do país, desde a partida de Israel em 2000. Todos estes atores externos são perturbados por manifestações de rua e todos reclamam o regresso à calma, porque que não pretendem que a situação se altere, dado que todos tiram proveito dela. E, contudo, elestá fora do controlo, porque os manifestantes pertencentes a todas as confissões religiosasquerem a supressão do comunitarismo, um sistema, que segundo estes, está ultrapassado e impede a evolução do Líbano. 

 Situação económica libanesa 

É verdade que a situação económica libanesa é catastrófica e a responsabilidade dos políticos no poder é enorme, num país em que 1% dos mais ricos detêm um quarto do rendimento nacional, colocando-o entre os Estados mais desiguais do mundo e com um desempenho económico desastroso, em que por cada dólar emprestado se gastam dois em serviços públicos que presentemente se encontram num estado calamitoso. Assim, o país não consegue fornecer eletricidade sem cortes, exceto para aqueles que podem pagar geradores a preços incomportáveis, vendidos por gangues mafiosos. Também curiosas centrais flutuantes apareceram na costa do Mediterrâneo, fornecidas pela Turquia a com uma poluição insuportável e inadmissível. afundamento da economia libanesa e a deterioração das condições de vida da população têm várias causas internas e externas, uma das quais foi a chegada massiva de cerca de um milhão e meio de refugiados provenientes da Síria, que desde o início da guerra civil, em 2011, se amontoaram no Líbano, representando hoje um quarto da população nacional num território que é um quarto da Síria. Inicialmente os libaneses acolheram os seus irmãos de braços abertos, mas hoje rechaçam-nos, porque aceitam salários de miséria que os empregadores aproveitam, num país onde 30% da população vive abaixo do limiar da pobreza e a devastação económica se estende ao nível étnico, dado que a maioria dos refugiados é na sua maioria sunita. 

 Lidar com a corrupção 

O desespero dos libaneses atinge o auge quando se deparam com a corrupção que gangrena o país há décadas. Para obter contratos públicos, fazer uma diligência administrativa, inscrever-se numa escola, tratar-se num hospital, os libaneses vêm-se obrigados a pagar “luvas” que não param de aumentar. Os projetos de estradas, de indústrias, de estádios desportivos, de habitação social, não se concretizam e são abandonados apenas porque a maior parte do dinheiro desapareceu mesmo antes de começarem as obras. Contudo, a crise não toca a todos! O primeiro-ministro demissionário, casado e pai de três filhos, tem uma aventura com uma jovem manequim, originária da África do Sul, a quem ofereceu presentes no valor de 16 milhões de dólares. Para os mais críticos desta situação, o sistema político-administrativo garante a manutenção da paz, mas também a corrupção e o clientelismo, numa liça onde as dinastias políticas continuam a imperar. 

por Isabel Meirelles 

Deputada à Assembleia da República Coordenadora da Comissão de Assuntos Europeus e membro da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia da República.