FRANCISCO JAVIER DE OLAZABAL

“NÃO FUI EU QUE ESCOLHI O VINHO, FOI O VINHO QUE ME ESCOLHEU”Inspirado pelo filho Francisco, que não hesitou em seguir a carreira de enólogo, Francisco Javier de Olazabal decidiu, em 1998, abandonar a Casa Ferreirinha e o Grupo Sogrape para lançar o projeto Vale Meão. Destacando o vinho como “um tema fascinante”, orgulha-se da “imagem de prestígio e qualidade conquistada pelos vinhos da Quinta do Vale Meão”, bem como de ter conseguido realizar o sonho de ser “dono” daquela quinta.  

QUEM É FRANCISCO JAVIER DE OLAZABAL? 

Sou filho de Jaime de Olazabal y Mendoça e de Maria do Carmo Rebello Valente. O meu avô paterno espanhol, Ramon de Olazabal, casou com Maria Luísa Ferreira de Mendoça, neta de Dona Antónia Adelaide Ferreira (a Ferreirinha). O meu avô materno, Vasco Rebello Valente, descendia de uma família com grandes ligações ao Douro e ao comércio do vinho do Porto (o seu avô tinha sido dono da Quinta do Noval e era exportador de vinho do Porto). A minha avó materna, Maria Emília Cabral, era filha do proprietário das quintas do Cachão (S. João da Pesqueira) e do Paço do Monsul (Lamego).Em 1968 casei com Maria Luísa Nicolau de Almeida, filha de Fernando Nicolau de Almeida, que foi o responsável pela Enologia da Casa Ferreirinha durante 62 anos. 


COMO DESCREVE O SEU PERCURSO ATÉ AOS DIAS DE HOJE?

Do que acima se diz, pode-se concluir que não fui eu que escolhi o vinho, foi o vinho que me escolheu… Depois de me licenciar em Economia na FEUP, fui trabalhar em 1966 para a Casa Ferreirinha, empresa criada pelos descendentes da Ferreirinha para produzir, envelhecer e exportar os vinhos das suas 20 grandes quintas (que se mantiveram na posse desses mesmos herdeiros) e que era presidida pelo meu pai, Jaime de Olazabal y Mendoça, a quem eu sucedi depois da sua morte em 1982. Mas desde a minha primeira visita a Vale Meão, teria eu uns sete anos, que fiquei fascinado por este lugar tão especial. Ao princípio, o que me atraía era a natureza bravia – uma parte importante da quinta era e é coberta pela mata mediterrânica de sobreiros, azinheiras, zimbros, etc., que albergavam uma fauna abundante e variada, sobretudo aves cuja observação passou a ser um dos meus hobbies. Nessa altura os proprietários da quinta eram 16 bisnetos da Dona Antónia, sendo oito da família Siqueira (S. Martinho) e oito da família Olazabal, sendo o meu pai proprietário de apenas um/dezasseis avós. No começo da década de 1970, a família encarregou-me de supervisionar a gestão da quinta. E começou também então um longo processo de concentração da posse da quinta em menos mãos, e a tomar forma o meu mirífico sonho de ser o seu único proprietário. O que veio a acontecer em 1994, quando já detinha cerca de 40% da sua posse e os meus seis primos e coproprietários me propuseram a compra do restante. Foi, sem dúvida, um dos momentos mais felizes da minha vida, a culminar um longo processo que implicou muito esforço e determinação mas que só foi possível graças à ótima relação de amizade e confiança que sempre tive com os membros da minha vasta família. 

PARA ALÉM DA SUA MÃO E DA SUA SABEDORIA, QUEM NOMEIA COMO FUNDAMENTAL A SEU LADO? 

Durante os primeiros anos de profissão o meu pai foi um exemplo de seriedade, inteligência e dedicação ao trabalho que nunca esquecerei. O meu filho Francisco, que desde miúdo se interessou pelas coisas do vinho – os seus desenhos infantis eram muitas vezes inspirados por motivos das adegas da Ferreirinha que ele visitava – e que por isso não hesitou em seguir a carreira de enólogo na UTAD, foi um elemento fundamental na decisão que tomei em 1998 de abandonar a Ferreirinha e o Grupo Sogrape para lançar o projeto Vale Meão. Isso implicou, para ele e para a sua mulher, Ana, o sacrifício de renunciarem à vida mais prazenteira do litoral e enfrentar as asperezas durienses, o que revela a enorme confiança que ele já tinha no potencial dos vinhos da Quinta do Vale Meão. 

SENDO “UM SENHOR DO VINHO”, O QUE MANTEVE, MANTÉM E IRÁ SEMPRE MANTER?

O vinho é um tema fascinante: a prova disso é que deve ser o produto mais escrutinado do mundo. Para além das inúmeras publicações que lhe são inteiramente dedicadas, todos os meios generalistas lhe consagram muito espaço. O infindável número de castas da vitis vinifera resultou do trabalho humano no sentido de adaptar o seu cultivo a solos e climas diferentes – e também ao gosto dos consumidores. Temos de procurar sempre combinações entre castas, natureza dos solos, métodos de cultivo e clima que confiram carácter e originalidade aos nossos vinhos. Isto é uma tarefa que envolve o esforço e saber de várias gerações. 

 QUANDO OLHA PARA TRÁS, O QUE MAIS O ORGULHA DE VER E RELATAR?

Em primeiro lugar a imagem de prestígio e qualidade conquistada pelos vinhos da Quinta do Vale Meão. Mas também ter conseguido, a partir de uma base muito estreita, realizar o sonho de ser, juntamente com a minha mulher e os meus três filhos, dono desta quinta. E de ter mantido, quer como gestor da Casa Ferreirinha quer como coproprietário de Vale Meão, as melhores relações com os meus familiares descendentes da Dona Antónia. 

 NA SUA IDADE JÁ FEZ MUITA COISA NO MUNDO DO VINHO, O QUE FARIA DIFERENTE? 

Quando entrei para o mundo do vinho, o consumo nacional per capita era oficialmente de cerca de 120 litros. Mas este número era muito inferior à realidade, pois não incluía o autoconsumo. A produção era totalmente absorvida pelo mercado interno e houve anos em que a Junta Nacional do Vinho importou vinho a granel para impedir a subida de preços. Não havia qualquer estímulo para exportar e confrontar a concorrência mundial. E o fator qualidade não pesava. E por isso não existia nenhuma formação superior especializada em viticultura e enologia. As empresas do setor tinham a maior dificuldade em encontrar bons técnicos nessas áreas, pois os poucos que havia eram os formados em escolas estrangeiras. A qualidade média dos vinhos portugueses era francamente má. Como responsável pela gestão da Casa Ferreirinha deveria ter procurado mobilizar o setor no sentido de exigir dos poderes públicos a criação de escolas de ensino superior exclusivas dessas áreas. A prova disso, a posteriori, é o salto qualitativo conseguido pelos enólogos formados na UTAD e outras escolas que vieram a revelar cabalmente o potencial dos nossos vinhos. 

E O QUE LHE FALTA FAZER?

Na área dos vinhos, tenho a felicidade de ter os meus três filhos, Francisco, Jaime e Luísa a trabalhar na nossa empresa. São eles que têm de decidir sobre o futuro, obviamente contando com o meu conselho e apoio. Mas estou a pensar escrever algumas palavras sobre acontecimentos e experiências que marcaram a minha vida, para uso apenas da minha família e dos meus amigos. 

 DOURO E PORTO SÃO DOIS PRODUTOS COM ORIGEM NA MESMA REGIÃO, DIFERENTES MAS COMPLEMENTARES. COMO ACHA QUE DEVERIA SER O CAMINHO DE UM E DE OUTRO? 

O quadro regulamentar do vinho do Porto é basicamente o mesmo que foi criado entre 1937 e 1945, ou seja, numa época de aguda crise mundial. A sua implementação, que visava não só garantir a qualidade, mas também evitar os excessos de produção, só foi possível porque o país era governado por um regime autoritário mas que gozava de forte apoio popular. Esse quadro sofreu algumas alterações oportunistas que o desvirtuaram, mas formalmente mantém-se, apesar do surgimento dos DOC Douro ter alterado profundamente a realidade. Acho que valia apena estudar cuidadosamente as consequências de uma liberalização que permitisse a cada agente optar entre produzir Porto ou Douro, mantendo-se no entanto o controlo qualitativo por parte de um organismo interprofissional que assumisse a certificação dos dois vinhos. 

 ONDE COLOCARIA A QUINTA DO VALE MEÃO NO MUNDO DOS VINHOS

Onde já começámos a construir a nossa imagem: no mundo dos vinhos com origem universalmente reconhecida e prestigiada. 

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