FERNÃO NEGRÃO

O REGRESSO DA ESPERANÇA

Com 2022 a terminar e não se prevendo a edição de nova revista senão no próximo ano, cabe tentar fazer o balanço macro possível dos acontecimentos relevantes deste ano, o qual, a bem da nossa esperança, pode terminar com fortes sinais da vinda de melhores tempos.

Dirão que há neste início de texto um excesso de otimismo que pode redundar num baixar de braços por excesso de confiança quando acontecem epidemias, conflitos regionais e climáticos, uma guerra na Europa e um crescimento perigoso de populismo. Direi que olhar para o futuro com esperança e otimismo só pode ser feito olhando à volta e agindo com o apoio dos sinais positivos a guiarem o nosso caminho.

Quanto a epidemias, a que mais nos afetou – Covid-19, doença infeciosa causada pelo vírus SARS-CoV-2, a manterem-se os cuidados que a maioria tem tido, continuará a fazer o caminho da sua redução e a deixar de constituir uma ameaça mortal quase generalizada, para passar a ser mais um vírus que se previne e cura com normalidade.

Os conflitos regionais e climáticos, infelizmente cada vez mais comuns e que surgem por todo o mundo e principalmente nas suas zonas mais pobres, agora alargados a um número cada vez maior de refugiados que se afastam da miséria total e das consequências das alterações climáticas, começam a preocupar os países mais desenvolvidos e a obrigá-los a tomar medidas de apoio social e económico, aproveitando as potencialidades desse mundo subdesenvolvido e evitando deslocações de milhões de pessoas da sua origem.

A guerra na Europa, acontecimento que estava longe dos nossos pensamentos, que aconteceu com a invasão da Ucrânia pela agressiva e brutal oligarquia Russa, deixou-nos não só espantados como também obrigados a reequacionar a nossa visão do mundo, das relações entre países e da necessidade premente de aumentar significativamente os canais de diálogo entre os povos, de modo a equilibrar as relações entre países e assim prevenir acontecimentos que ameacem a paz.

POPULISMO A CRESCER

O populismo que vive da contestação às democracias, ao seu modo de funcionamento e às suas fragilidades – como aliás se viu na contestação à forma como foi feito o combate à epidemia Covid, através de redes de negacionistas e da acusação permanente de que as medidas tomadas constituíram atentados aos direitos fundamentais. Imaginemos o que teria sido se não tivessem sido tomadas medidas mais musculadas para a criação de condições na descoberta da vacina e a organização para a sua toma por milhões de pessoas. Passada a caminhada mais dura e já perto da normalidade, todos os direitos foram devolvidos intactos e a todos sem exceção.
O populismo que transforma a criminalidade num monstro que as democracias não querem combater e o fazem de forma demagógica, como se alguma vez na história do mundo tivessem havido tempos sem crime.

O populismo que promete resolver todos os problemas e de toda a gente já amanhã, imputando essa incapacidade às democracias, como se alguma vez fosse possível resolver tudo a todos num piscar de olhos. O populismo que, invocando a liberdade e os direitos, mais não pretende do que tomar o poder, despojando-nos dos direitos e da liberdade.

O populismo que na sua ação política usa a mentira, a voz alta, a agressividade, o tom de quem tudo sabe e está cheio de certezas, sendo que esta é a única característica em que é coerente.

RAZÕES DE ESPERANÇA

Este é o quadro em que temos vivido nos últimos anos em variados países. Mas temos agora razões de esperança.

Foram criados meios para combater uma perigosa pandemia, em tempo recorde e sem privação duradoura de qualquer direito, como recentemente ficou provado. Os conflitos regionais e as alterações climáticas estão na agenda política e criam-se soluções para vermos resolvidos muitos desses problemas. A guerra na Europa pode estar já a caminho de terminar, ficando como lição que, de facto e mais uma vez, David venceu Golias, e que o verdadeiramente importante e decisivo é a existência de uma rede mundial de diálogo permanente. Quanto ao populismo, as eleições intercalares nos EUA vieram dar-nos um muito importante sinal de que se começou já a perceber que a democracia é que vale.

São sinais de esperança. De forte esperança. São caminhos novos que nascem por via da liberdade e da pluralidade que a democracia nos confere. É uma nova esperança no definhamento do populismo e na redescoberta da democracia. Como dizia Winston Churchill, a democracia é um regime cheio de defeitos, mas ainda ninguém inventou outro melhor. Terminamos assim 2022 com esperança. Começaremos 2023 com o começo das concretizações dessa esperança.

Festas Felizes!

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