
REFORÇO SÍSMICO DO VIADUTO DUARTE PACHECO. PRÉMIO SECIL ENGENHARIA CIVIL 2025 – O Prémio Secil Engenharia Civil foi criado em 1995 pela Secil em colaboração com a Ordem dos Engenheiros com o objetivo de promover o reconhecimento de engenheiros autores de projetos concretizados em obra que constituam referências de inovação, qualidade e sustentabilidade, valorizando a utilização do cimento enquanto material estruturante.
Ao longo dos últimos 90 anos a engenharia civil portuguesa assegurou a construção de infraestruturas indispensáveisao desenvolvimento do país, como: sistemas de abastecimento de água e saneamento, estradas, barragens, portos, pontes, viadutos e edifícios, entre muitas outras obras.
Em quase todas as obras foi utilizado o betão, uma das mais notáveis invenções do século XIX, que se generalizou a partir dos anos 50 do século XX. O cimento é o aglutinante que permite agregar areia, pedra e água, transformando o conjunto numa pedra artificial moldável, resistente e duradoura.
Apesar da conotação pejorativa como por vezes é referido o “betão”, atrevo-me a estabelecer um paralelo: se aspolíticas públicas dispusessem de um “cimento” capaz de agregar as melhores propostas de cada força política, para desenvolvimento do país, Portugal seria certamente mais coeso e resiliente, e capaz de enfrentar os desafios do futuro.
Prémio Secil Engenharia Civil 2025
O Prémio Secil Engenharia Civil 2025 foi atribuído em julho de 2026 ao Reforço Sísmico e Reabilitação do Viaduto Duarte Pacheco, em Lisboa, uma obra que é um exemplo notável da evolução técnica, da sustentabilidade e da qualidade da engenharia civil portuguesa.
O projeto é da autoria dos engenheiros Júlio Appleton e António Costa, que interpretaram de forma exemplar o desafio de manter a imagem estrutural da obra inicial, avaliar as suas condicionantes e introduzir os reforços necessários para garantir a resistência sísmica em conformidade com as exigências do Eurocódigo 8, que introduziu os conceitos mais atuais de engenharia sísmica.
O resultado permitiu que um viaduto com mais de 80 anos responda às atuais exigências de segurança sem ser descaracterizado. Igual reconhecimento é devido à construtora Teixeira Duarte, S.A. pela qualidade com que executou uma intervenção particularmente exigente.
Ícone da engenharia portuguesa
O Viaduto Duarte Pacheco é um ícone da engenharia portuguesa, pois desde a sua conceção inicial até aos nossosdias, passando pelo nome atribuído em 1944, representa a evolução da excelência da engenharia portuguesa, a importância da sustentabilidade das obras públicas e da sua segurança.
Foi projetado em 1937 pelo engenheiro João Barbosa Carmona, nos primórdios do betão armado, sem regulamentação e exigência de segurança sísmica. Foi inaugurado em maio de 1944, seis meses após a morte do ministro Duarte Pacheco num acidente de automóvel.
À época, o viaduto representou uma verdadeira inovação ao ser executado em betão armado, tornando-se num dos maiores da Europa, com um vão de 471 metros. Até aos anos 30 do século passado, as pontes e viadutos, eram, com raras exceções, construídos com estruturas metálicas. O Viaduto ligou Lisboa à primeira autoestrada construída em Portugal, inaugurada na mesma data, ligando Lisboa ao Estádio Nacional, no Jamor.
O projeto foi revisto pelo engenheiro Edgar Cardoso, que viria mais tarde a projetar a Ponte da Arrábida, inaugurada em 1963, com o maior vão em betão armado no mundo. Em 1991 foi inaugurada a Ponte São João, no Porto, também com projeto do engenheiro Edgar Cardoso, com o maior vão do mundo para pontes ferroviárias, que ainda detém esse recorde.
Desde meados dos anos trinta do século XX que a engenharia civil portuguesa, pública e privada, concebeu obras notáveis à escala mundial, com organização, incentivo, prestigio, e reconhecimento público.
Intervenção de reabilitação
Em 2001 o Viaduto Duarte Pacheco foi objeto de uma importante intervenção de reabilitação. O custo atualizado da sua construção e posteriores intervenções totalizou apenas 30,4 milhões de euros, o que corresponde a cerca de 3500 euros por m2 de tabuleiro por onde circulam diariamente cerca de 100 mil veículos.
Este Prémio também justifica uma reflexão sobre a necessidade de garantir o reforço sísmico de infraestruturas e edifícios, pois os frequentes sismos evidenciam a vulnerabilidade da sociedade aos sismos que deixam um rasto de destruição e perdas de vidas humanas, como o ocorrido na Venezuela.
O assunto fica na ordem do dia durante algum tempo, mas rapidamente desaparece e as preocupações dominantes voltam a temas como a proteção do ambiente, a transição energética, a economia circular ou a sustentabilidade. São temas importantes, mas a segurança sísmica das construções deveria ser uma das maiores prioridades das políticas públicas.
Por isso merece um elogio a entidade responsável pela segurança do Viaduto, a Infraestruturas de Portugal, que tomoua iniciativa de promover a obra de reforço sísmico, a reabilitação e a fiscalização.
Duarte Pacheco
O nome atribuído ao viaduto também justifica ser destacado, pois o engenheiro Duarte Pacheco foi uma figura ímpar no desenvolvimento do país e, em particular, da cidade de Lisboa. Visionário e homem de ação, lançou as bases da moderna engenharia civil portuguesa, apesar de ter desempenhado o cargo de ministro das Obras Públicas durante apenas oito anos. Promoveu e dirigiu a construção do Instituto Superior Técnico, do qual foi diretor, a organização do Estado e as primeiras políticas públicas de habitação, dignas desse nome. Sem Duarte Pacheco, a sua visão e a capacidade de realizar, não teríamos um grande parte das infraestruturas que fazem parte do nosso dia a dia.
Por tudo o que foi referido, o Viaduto Duarte Pacheco é uma referência que faz parte da história da engenharia civil portuguesa e que nos deve levar a refletir sobre o passado, o presente e o futuro da engenharia civil que queremos ter.

