FERNANDO NEGRÃO

O CENÁRIO E A REALIDADE

Tendo perfeita noção da falta de apoio do Ocidente a Kiev, o Ministério da Defesa alemão incluiu nos seus cenários a possibilidade de a Rússia lançar uma grande ofensiva contra a Ucrânia e assim obter uma vitória expressiva nesse país e abrir a porta a uma guerra com a NATO.

No cenário alemão, está prevista a deslocação de tropas russas para junto da fronteira com a Lituânia, Letónia e Estónia, feita através da Bieolorússia e do enclave de Kaliningrado, com instalação de armas. Desta forma, a Rússia passaria a controlar o corredor de Suwalki, que divide a Polónia da Lituânia, e isolaria os três países do Báltico do resto da Europa. Prevê ainda, o aludido cenário, no âmbito da obrigação de intervenção quando um país aliado é atacado, intervir a título de prevenção de uma ocupação russa dessa zona.

E termina dizendo que tal situação daria origem a uma guerra aberta entre a Rússia e a NATO, o que poderia acontecer no início de 2025. Prevendo mesmo, para essa altura, o início da Terceira Guerra Mundial. Bem sabemos que é um “cenário”, contudo, de entre todos aqueles que as Forças Armadas elaboram como forma de se prevenir e de se preparar, o descrito aconteceu agora pela primeira vez.

Curiosamente, este cenário coincide com as eleições nos Estados Unidos da América que podem dar a vitória a Trump, que há cerca de seis meses, numa conferência de conservadores norte-americanos, disse: “Antes ainda de chegar à Sala Oval, vou resolver a guerra horrível entre a Rússia e a Ucrânia. E não me vai demorar mais de um dia. Porque sei exactamente o que lhes dizer… Fui o único Presidente com quem a Rússia não invadiu nenhum país. Eu disse-lhe:‘Vladmiir, não o faças. Somos amigos, não invadas nenhum país’. A infantilidade destas declarações e a sua coincidência com a possibilidade de um novo conflito mundial só reforçam o desejo de que Biden ganhe as eleições.

OS DESAFIOS DA EUROPA

Este é o pano de fundo de todos os desafios por que passa a Europa. Para além dos clássicos, como as alterações climáticas, o envelhecimento da população, a estagnação económica, a imigração descontrolada ou a subida da inflação, temos a obrigação de acrescentar a crise das instituições, senão mesmo a crise da Democracia.

A Democracia é um regime político que assenta na participação dos cidadãos na definição e condições do exercício dos direitos políticos, diretamente ou através de representantes eleitos, designadamente na criação de leis e escolhendo os seus representantes políticos através do sufrágio universal.

Formalmente a Europa orgulha-se das suas democracias e ao longo de décadas foi-se esquecendo da falta de crescimento económico e dos problemas sociais associados, da corrupção e da falta de meios para o respetivo combate, dos gravíssimos problemas demográficos que levam à necessidade de se socorrer da imigração, o que faz de forma desordenada, transformando uma solução num problema político, e ainda da falta de liderança e de quadros políticos competentes, dedicados, com espírito de missão e sem deslumbramentos.

Estas fragilidades levaram a que, na Europa, a extrema direita surgisse, crescesse e em alguns casos governasse. Primeiro de mansinho e ainda estamos nessa fase. Que a Democracia não se deixe ameaçar e se imponha de novo, não como o melhor regime de que há memória, mas como aquele que é reconhecidamente melhor que os outros.

MUDANÇA EM PORTUGAL

É com a guerra como pano de fundo, associada a democracias fracas e minadas pela extrema direita, que ocorreram eleições legislativas no nosso país, no passado dia 10 de março. E ocorreram poucos meses após ganhar uma maioria absoluta. A maioria absoluta socialista, que à semelhança da legislatura anterior, onde o PS fez uma coligação com a extrema esquerda, desgovernou o país, deixando-o sem cuidados de saúde, sem escola, sem justiça e, já no fim, sem segurança.

Caído o Governo, não houve uma alternativa que se impusesse a fim de ganhar bem e de forma convincente. Mas mudou-se, e essa mudança tem o dever de se impor, não pelos interesses partidários, mas pelo país, que precisa, como de pão para a boca, de liberdade na economia, de justiça e competência nas políticas sociais, e de recuperar tudo o que foi destruído pelo socialismo, como a saúde, educação, justiça e segurança.

O próximo Governo tem muito pouca margem de manobra, o que leva a prever novas eleições a curto prazo. Poderá ser em 2025. Esperemos que sem guerrae com políticos com visão e capacidade de liderança.

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