FERNANDO NEGRÃO

A SEGURANÇA QUE NÃO TEMOS – Num grande e muito frequentado centro comercial às portas de Lisboa, ao princípio da noite, ocorreu um tiroteio do qual resultou uma criança ferida, muito pânico e certamente uma sensação de insegurança geral. 

Do incidente, ocorrido a 11 de setembro do corrente ano, terá resultado uma sensação de insegurança geral que raramente é tida em conta e que tem como principal característica o avolumar dessa sensação individual de falta de proteção que, mais do que o comentado nas mesas dos cafés, vai fazendo com que em silêncio cada cidadão que estava àquela hora naquele estabelecimento comercial vá deixando desenvolver dentro de si a ideia de que ninguém zela por si nem pelos seus. Os que lá estavam serão os que melhor guardarão na sua memória o terror de estar no meio de um tiroteio, desconhecendo as razões, os envolvidos e a respetiva dimensão. E os milhões que lá não estavam e souberam através dos media ou redes sociais, mesmo que pouco tenham ouvido, terão esse “episódio” sempre em conta no momento de emitir uma opinião acerca do estado da segurança no seu país. O que pode acontecer numa conversa de amigos ou no momento de votar numas eleições nacionais ou locais. 

O VALOR DAS ESTATÍSTICAS – A resposta política a estes “episódios” de natureza criminal é por regra a de que o nosso país tem uma das taxas de criminalidade mais baixas do mundo e é por isso um país seguro. O mais seguro de todos. Descansem por isso os portugueses porque as estatísticas já resolveram o problema da criminalidade em Portugal, sendo impossível qualquer alteração por via da realidade. 

Esta reação política é errada. Errada porque infantil, pois equivale a uma visão simplista. É ignorante, porque revela a falta de conhecimento da complexidade e a delicadeza deste assunto e suas múltiplas variantes na cabeça de cada um de nós. É ainda irresponsável porque a médio e longo prazo pode pôr em causa a paz social e, por fim, é reveladora de falta de sentido de Estado por considerar a segurança como uma obrigação menor do Estado, quando é este que, a mando dos cidadãos nacionais, tem o monopólio da proteção da integridade física de todos e a proteção dos bens igualmente de todos. O seu não exercício é uma traição aos cidadãos e um convite ao regresso à justiça privada que felizmente não acontece por o cidadão muitas vezes ter melhor sentido real do funcionamento das instituições do que alguns responsáveis na área. 

ATUAÇÃO DA POLÍCIA – A determinada altura de um dos filmes que foram surgindo, vemos dois agentes da Polícia de Segurança Pública de arma na mão a avançarem pelos corredores do centro comercial e, ao mesmo tempo, alguém que filmava dizia: “Olha para eles, olha para os polícias, estão com mais medo que nós”. Estavam? Não acredito que estivessem. O que faziam naquela situação era avançar com a cautela necessária para a proteção de terceiros e própria, bem como para evitar um tiroteio generalizado. 

Porém, a perceção do cidadão comum vai-se construindo e no que à segurança diz respeito, já se vai concluindo que há medo na atuação da Polícia. Não acredito que haja medo, o que existe, sim, é um aumento das dificuldades na sua atuação de todos os dias, que não pode nem deve ser confundido com medo. E essas dificuldades traduzem-se na falta de efetivos, na sua formação por vezes apressada, na falta de condições de trabalho, na ausência de lideranças eficazes, num modelo instável de segurança interna e na ideia de que a estatística comanda o trabalho policial descurando novas formas de criminalidade que vão surgindo e velhas formas que criam novos contornos. 

Com certeza, surgirão aqueles que dirão do exagero daquilo que aqui fica escrito e socorrendo-se de novo e sempre das estatísticas, o que me leva a terminar recordando o que está a acontecer com documentos confidencialíssimos da NATO à guarda de Portugal, que são furtados e postos à venda nas redes sociais subterrâneas, situação de que as nossas autoridades tiveram conhecimento através de alerta de país terceiro. 

E assim vamos de segurança! 

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