
RESCALDO. SEMPRE A TEMPO, PORQUE CHEGA ATRASADO
Temos novo Presidente. António José Seguro ganhou. Esmagou na segunda volta. Como é normal em Portugal, o segundo classificado, o que perdeu, apesar de ter sido prensado fino, também ganhou. Ganhámos todos. Com a vitória de um e a derrota dos outros.
André Ventura não tem gabarito, personalidade, nem vontade, para ser Presidente da República. Queria ir à segunda volta, o que conseguiu, e estribar-se na mentira de que é o líder da direita. Será o líder de um tipo de direita, a dele, mas não é o líder de todas as direitas que agora existem em Portugal. Essa federação de direitas não existe e, logo, não pode ter líder. Nem sei se pretende ter dada a inorganicidade de ideias e partidos que a constituem e a aparente falta de estratégia conjunta para assumir a governação do país. André Ventura perdeu, nunca imaginou que pudesse ganhar, não queria ganhar, mas teve antena, deixou umas “bocas” e mostrou que tem um espaço que não pode ser ignorado. Se isto é vitória?
Cotrim de Figueiredo ficou no conforto do terceiro lugar e, obviamente, também perdeu. Outro que não tem estofo para ser Presidente da República. Bem-falante, bem vestido, bem arranjado, apresenta “bem” umas ideias que nem ele percebe o que são. É obra. Liberal de manhã, social-democrata ao fim da tarde, Hayek pela evening para que rime com queque. Nunca conservador. Sejamos justos, vale mais do que o partido que deixou órfão de si. Perdeu a eleição, mas ganhou um emprego na TV, seguramente bem pago, para se juntar ao rol dos que repetem banalidades e entretêm o pagode. Dizem, vai fundar um movimento, desconfio que uma cotrinada que, como o nome indica, vai dar em… nada. Percebeu que, depois do inigualável Marcelo, ter espaço de opinião na televisão não rima com eleição?
Gouveia e Melo, o bluff que a comunicação social inventou, ficou-se pelo bluff. O candidato do meta-espaço, o vai a todas e vale tudo, foi desmascarado pelos factos. Suicidou-se com o homicídio, em direto, de Marques Mendes, mas já estava encaminhado para se despenhar do alto das sondagens que tinham sido aventadas (inventadas?) para justificar a messiânica candidatura do marujo que mandava vacinar de camuflado, tal camaleão, descompunha subalternos em público e ameaça a Rússia com as 300 ogivas nucleares da Europa. Livrámo-nos do mal e da sua clique.
Marques Mendes, junto com Seguro um dos dois candidatos com capacidade para ser Presidente, foi morto pelos adversários Cotrim e Melo Gouveia. Morto porque se deixou matar. Aqueles que o mataram morreram com ele. Irónico. Inebriou-se com sondagens, acreditou na sua popularidade televisiva, não fez o suficiente para ganhar. A comunicação social, onde cresceu politicamente, não o ajudou e um passado de compromissos, algum comentário pusilânime aqui e ali, mais os inimigos pretéritos e fogo amigo, fizeram-lhe a folha. O PSD foi lastro. Quinto lugar e, honrosamente, a aceitação da derrota com o consequente retiro.
Dos outros vencedores não rezará a história, se bem que fique para a história mais esta vitória dos comunistas portugueses, dos originais e dos disfarçados.
António José Seguro ganhou. Foi o único vencedor numa corrida em que só havia um lugar em disputa. O país ganhoue não interessa discutir os “se”, sempre os “ses”, tivesse havido outros candidatos. Ganhou por mérito pessoal, demérito dos adversários (é sempre assim), mas ganhou sozinho e agora só lhe resta arcar com a solidão de Belém e o peso do cargo. Que os próximos cinco anos sejam de bons augúrios.

