FERNANDO LEAL DA COSTA

BURKAS 

Num país assolado por tantas dificuldades em tantos setores essenciais para a vida das pessoas, acabámos a discutir burkas e outros trajes de tradição islâmica no nosso Parlamento. Nada contra que se protejam as mulheres de vestimentas indesejadas. Nada contra que se pretenda salvaguardar a forma de apresentação pública europeia das Senhoras que cá vivam. Nada contra, mais uma vez, que se pretenda impedir a ocultação da face, enquanto medida de segurança. No entanto, sendo eu um oponente fervoroso do abuso sexual das mulheres, seja de que forma for feito, há questões que me intrigam e, julgo, mereceriam ser melhor tratadas. 

Há umas semanas, estava eu num aeroporto internacional de grande movimento, um dos maiores do mundo, quando me vi rodeado de umas centenas de indivíduos em que o traje os distinguia. Eles, de chapéu, quase sempre alto, vestidos de negro e branco, com umas curiosas trancinhas ao lado do cabelo curtíssimo, sendo que pouco se via por baixo dos chapelados machos, com umas franjas de pano a caírem da camisa. Todos assim, dos velhos às crianças, orgulhosamente diferentes, todos “iguais”. Elas, com pouca variação, com as mesmas saias compridas, sapatos de século XIX, quase todas com crianças a reboque, no colo ou de empurrão. E, com um possível horário programado que me era ininteligível, os homens, só eles, levantavam-se, rumavam para uma parede, empunhavam um livro, abanavam ritmicamente a cabeça e recitavam uma ladainha em língua que não entendi. Mas tinham a cara destapada. 

Tal como, com a cara destapada, andam pessoas de turbante e os Amish, só para citar um grupo de “diferentes” ludistas, passeiam-se em Filadélfia ou Baltimore. Há, também, quem goste de envergar a camisola do seu clube com cachecol colorido que o identifica com o grupo a que pertence, como se de uma tribo se tratasse. Hoje, numa generalização da tradição que já só era coimbrã, vemos jovens de capa e batina sem que nada os obrigue a isso. Os militares fardam-se e as tropas especiais, precisamente para que não sejam reconhecidos, combatem de cara tapada. Nós humanos somos assim. Gostamos de estar incluídos e precisamos de pertencer. Não nos iludamos porque, mesmo quando pretendemos ser diversificados, seguimos as modas próprias de cada época. Quase ninguém, embora haja de tudo e para tudo, se veste hoje como teria de se apresentar na corte de Luís XIV. Nos anos 1970, em Lisboa, sei lá porquê, era de bom-tom andar de samarra, calças à boca-de-sino, pullover de decote em bico. A moda não terá chegado ao Porto. Esquerdista que se prezasse, vestia camisa de flanela aos quadrados, costume bem americano, por sinal. Na pandemia, com maior ou menor excesso de zelo, andava tudo de máscara e, no auge do delírio, cheguei a cruzar-me com um fulano tapado com máscara antigás. 

Bem sei que seria inútil reforçar que ninguém deve ser obrigado a vestir-se como não quer, mas apenas pretendo alertar para os limites ténues entre a proibição de trajar com burka e a substituição de uma imposição cultural ou familiar por outra de Estado. Em boa verdade, no meu modesto entender, a única razão que pode sobrar para que se proíbam as burkas é a da segurança pública. Proibir para que a coletividade fique mais segura. Argumentar com a defesa da cultura ou a tentativa de proteção das mulheres vítimas de abuso em casa será pouco e passível de contestação racional. Ou será que também se vai proibir de circular, nos preparos atrás descritos, as gentes que encontrei no aeroporto? É que, sendo diferente, confesso que me senti intimidado no meio deles. Pacíficos, não me fizeram mal. Mas, mesmo assim, eram diferentes e gritavam, no trajar, que eu não pertencia naquele lugar onde estava minoritário. 

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