FERNANDO LEAL DA COSTA

O VAZIO

Escrevo a menos de três dias do início da votação de 10 de março. Não acredito que seja a votação mais importante do regime democrático parlamentar português. A última votação será sempre a mais importante de todas. Um dia, com a distância suficiente, os historiadores dirão qual a eleição que mais impacto teve na estruturação do regime. Mas é, obviamente, uma eleição importante como são todas as que servem para escolher governos.

Logo à partida porque é aquela que molda o futuro político imediato. E também é importante porque decorre, coisa de que ninguém quer falar, num contexto internacional de grande potencial de conflitualidade, o maior desde os anos de 1938-39 que desembocaram na hecatombe que destruiu grande parte do mundo, o dividiu em dois blocos, que ainda subsistem mesmo que mascarados de outras cores, e culminou na era das armas atómicas. Ainda mais importante por ser a primeira eleição para o parlamento nacional em que o vazio de ideias domina a campanha, as discussões, os debates entre os chefes de cada agremiação que se denomina de partido político.

Nos termos da aparência, o panorama político-partidário nacional é assustador. Olhando para o conjunto dos programas em competição, ponderando o cansaço com que o cidadão trabalhador chega ao fim de cada semana, não encontro muitas razões positivas para ter a maçada de ir votar. Naturalmente tenho razões negativas, a vontade de mudar de Governo e a náusea que já me causa a propaganda dos atuais “donos” do poder, para lá ir votar num partido que possa contribuir para criar fraturas políticas e culturais nos absurdos a que temos vindo a assistir.

Mas as ideias? São poucas, velhas, novas só se irracionais, sem rasgo, quase todas incapazes de trazer valor acrescentado a um país que se desvaloriza e perdeu fé em si próprio. E as pessoas? É melhor mudar de assunto. Não se encontra uma liderança efetiva, eficaz, inspiradora e mobilizadora. É tudo do “do mal, o menos mau”. Circo e pão. Arruadas e desfiles, campanha low cost, ao nível dos mínimos a que a política nacional chegou. Ouvindo os discursos e dichotes dos concorrentes aos lugares na Assembleia da República, quase sempre distantes da realidade e cheios de promessas impossíveis de cumprir, ponho-me a pensar se aquela gente julga que somos todos parvos. É que nem se trata de eles terem assumido que não vale a pena convencer a pouco numerosa “elite, urbana, educada, razoavelmente culta e afluente pelosparâmetros nacionais. A própria forma como se dirigem a um suposto “povão”, ignorante e massificado, que ainda assiste ao Big Brother ou aos concursos de caça-talentos, demonstra que nem por esses têm qualquer tipo de consideração. Até esse “povão” tem sentido crítico e haverá quem nele tenha desenvolvido o mínimo de bom gosto para já não apreciar as figuras ridículas a que os candidatos se prestam.

Tenho essa esperança. Quero crer que os que sofreram na pele a degradação dos serviços prestados pelo Estado, as pessoas que se deslocam em transportes públicos porque não têm alternativa, os que não conseguem aceder a habitação digna e comportável, aqueles que não ganham o suficiente para sair da pobreza onde se arrastam há gerações, os legitimamente preocupados com a sua segurança, terão feito uma escolha consciente e presciente, na falta de melhor evidência, daquele que, à data em que lerão este texto, será oprimeiro-ministro de Portugal.

Não consigo antecipar resultados. No final das contagens, distribuídos os deputados, andaremos, como se nunca mais fosse possível mudar de tema, a discutir alianças, moções de rejeição e governabilidade. Como se a governabilidade apenas fosse uma questão de somas de grupos parlamentares. Nada disso. O maior desafio para a governabilidade do país será a capacidade de um primeiro-ministro encher de obra feita o vazio programático que lhe garantiu a eleição, antes que o seu mandato inevitavelmente termine. Vai ser aí que veremos o líder que elegemos, se é que da escolha de uma liderança se tratou nesta eleição.

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