FERNANDO LEAL DA COSTA

IMIGRANTES 

A história da humanidade também é a história das migrações dos povos. Houve migrações pacíficas, assim as imaginamos, e invasões com maior ou menor derramamento de sangue. Desde que existimos, nós, os humanos, deslocamo-nos por causa da fome, das doenças, do clima, da curiosidade, sempre em busca de espaços novos, na procura da expansão dos territórios ocupados. Foi assim que colonizámos o mundo e nos fomos fixando, ainda que provisoriamente, nos locais mais aprazíveis onde o alimento e bem-estar podiam ser assegurados. Uns, mais resilientes, adaptaram-se a sítios que outros considerariam inóspitos, outros, mais afoitos, porque ouviram falar de lugares melhores ou pela necessidade de descobrir, moveram-se para lá. Há lugares na Terra, a que agora se chama Países, que foram habitados sequencial ou simultaneamente por povos, por vezes nações, diferentes. Quando essa ocupação de território foi sucessivamente substituída, o mais comum em locais de passagem, assiste-se a reivindicações de soberania baseadas em passados seculares. Noutros casos, há povos que perderam a “sua” terra e vivem sob o domínio de outras maiorias que os respeitam ou não. Há exemplos de convivências e, infelizmente, quando as fronteiras foram administrativamente decididas num qualquer fórum onde os interessados nem estavam representados, também temos guerras entre populações que lutam pela posse de um espaço onde possam viver de acordo com os seus costumes e as suas decisões. 

No meio de tudo isto há gente que foge da fome, da violência, da intolerância, gente que foge para salvar a vida. Foi sempre assim. Antigamente havia quem se movesse empurrado pela horda que os perseguia. Agora há quem seja perseguido no seu “país”, não tenha trabalho, passe fome, esteja no nível mais baixo do estrato social e sem perspetivas de lá sair. Imigram. Pagam o que têm para que sejam transportados, metem-se ao caminho, atravessam mares em botes, afogam-se, são mortos no trajeto. Desafiam a ideia de que haja uma só Terra que apenas pertença a um Povo, a uma Cultura. E são mal recebidos quando chegam a algum lado, na procura do leite e mel. Ficam na rua, mendigam, sofrem exploração, são escorraçados, até por aqueles que, também sendo imigrantes, chegaram primeiro. As migrações são inevitáveis e necessárias. Há trabalho que precisa de ser feito e não há quem o faça nos países com maior desenvolvimento e menor natalidade. Há talentos que não podem ser desperdiçados, perdidos numa selva ignorada ou num deserto onde não se pode ser mulher e ter direitos. Logo, os países mais ricos têm de ter uma política de acolhimento de imigrantes que, lamentavelmente, não poderá acomodar todos os que pretendem fixar-se num novo país. Tem de haver maior controlo de fronteiras, garantias de que há trabalho para quem chega, tem de haver a imposição de que as sociedades que acolhem serão respeitadas e as migrações não podem resultar em processos de imposição de culturas estranhas como nas invasões do passado. Não podemos permitir que as religiões e regimes de opressão de que os imigrantes fugiram se tornem o pesadelo dos países que os acolhem. Precisamos que as culturas se misturem e não se antagonizem. O volume de imigrantes obriga a isso mesmo. Mas, muito mais importante do que tudo isto, o essencial seria que os países mais ricos e poderosos deixassem de apoiar e suportar cleptocratas, tiranos teocratas, saqueadores de matérias-primas. 

É fácil chorar pelas crianças que morrem nas viagens, pugnar por justiça, colocar muros e redes, em vez de regular as entradas, protestar contra os campos de refugiados que se vão acumulando por todo o lado. Difícil, demonstrado impossível, tem sido impedir as guerras na origem, proteger as populações onde elas vivem, dar-lhes condições para que não tenham de imigrar em fuga. Parece-me evidente. 

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