FERNANDO LEAL DA COSTA

DIREITA E O FUTURO

Durante muitos meses tive a felicidade de partilhar as páginas desta revista com o Professor Adriano Moreira. Foi uma das situações mais honrosas que vivi. Não tive a sorte de conhecer o Professor. Cumprimentei-o em algumas ocasiões em que nos cruzámos. Deixou-me sempre uma impressão fortíssima, pela sua presença carismática, a esmerada educação, pelos textos que foi publicando.

O seu desaparecimento, uma inevitabilidade humana, foi a perda de um espírito brilhante. Uma ausência que nos afeta a todos. O Professor Adriano Moreira era, a par de um número muito reduzido de intelectuais que ainda vivem, uma das últimas personalidades da direita política no nosso país.

A direita tem tido, em particular desde Abril de 1974, uma enorme dificuldade de afirmação e ocupação de espaço no combate político democrático. Ainda é, muito mais do que a esquerda lusa, conotada com as ideias imperialistas, xenófobas e racistas da primeira metade do século XX. Ser fascista é pecado mortal. Ser-se comunista, defender ditaduras sangrentas, desumanas, cruéis e igualmente xenófobas e racistas, é virtude revolucionária e patriótica. Restos de ”abril” que tardam a desaparecer. E se, tendencialmente, estes resíduos ideológicos se mantêm é porque há, na verdade, uma direita em Portugal que não conseguiu ainda encontrar um espaço de pensamento, com as consequentes propostas políticas, que lhe permita afirmar-se como alternativa credível de poder.

Em Portugal, ainda se vive num estado de confusão em que um partido que se denomina de social-democrata é descrito como de direita, os liberais preferem ser de centro-esquerda, os democratas-cristãos desapareceram da Assembleia da República e a direita que eleitoralmente mais cresceu é aquela que interessa à esquerda, exatamente por não ser viável, ser xenófoba e racista, por não ter quadros que a façam ser ameaça à hegemonia que os socialistas procuram impor. Nada disto é bom para a criação de alternativas ao Governo hoje.

É neste estado de coisas que personalidades como a de Adriano Moreira nos fazem e farão falta. Pessoas que sejam capazes de construir uma direita que case um forte cariz social com ideias de incentivo à iniciativa individual, pugne pela liberdade responsável, com respeito por valores identitários sem exclusão das minorias, disposta a adaptar-se à evolução das sociedades, mas sem procurar afirmar-se como “moderna” através da destruição dos padrões culturais definidores de Portugal e da Europa. Uma direita que não seja só económica ou nacionalista, mas que não ceda à tentação de se abastardar na “revolução cultural” em curso. Diga-se, da dita “revolução”, que ela é, acima de tudo, a expressão de falta de cultura.

Portugal é um país pobre e que tem sido empobrecido por políticas que sufocaram o crescimento económico e afogaram os cidadãos na dependência de um Estado que o Partido Socialista tem governado na maioria dos anos após 1974. Precisa de se libertar. Mas a “libertação” não pode ser libertária, nem feita à custa do abandono da massa de pobres que tenta sobreviver, nem de uma classe média que tem sido proletarizada para ganhos eleitorais e gáudio da esquerda mais conservadora.

Em tempos defendi que ao CDS-PP poderia ter sido melhor uma fusão com o PPD-PSD. Hoje, com a emergência de “novas” forças – no fundo antigas, embora com embalagem diferente –, cuja explicitação em partidos era importante para o equilíbrio esquerda-direita num Portugal enviesado para a sinistra, parece-me importante uma refundação do CDS-PP que poderá passar, depois de eleições Europeias a que deverá concorrer sozinho e eleger deputados, por uma coligação com o PSD em futuras eleições parlamentares. Talvez, quem sabe, com um próximo Adriano Moreira? Como se isso fosse possível.

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