FERNANDO LEAL DA COSTA

DEMISSÕES – Criou-se, em Portugal, a ideia esdrúxula de que a demissão de um ministro é uma coisa nobre e significante de grande carácter. Obviamente, se a demissão for pedida pelo próprio. Ministro que peça a demissão é coisa que merece apreço, pela honra e dignidade que esse ato de aparente abnegação confere ao demissionário. Não posso concordar com esta ideia extravagante. 

Quem pede a demissão reconhece a sua incompetência para fazer melhor, coisa dificilmente louvável para lá da assunção de que nunca deveria ter aceitado o desempenho das funções de que se demite, ou dá a entender que não podia fazer melhor por razões que lhe são externas. Em qualquer dos casos, há reconhecimento de incapacidade, sendo que a demissão de tipo 1), a do reconhecimento de incompetência, se confunde com a de tipo 2), a da “falta de condições”. Todavia, a demissão de tipo 2) pode subdividir-se em 2a), quando a falta de jeito é confundida com a “falta de condições” que não soube criar e, neste caso, é uma demissão de tipo 1) disfarçada. E há o tipo 2b), que é a demissão de protesto, outra forma de admitir que ninguém quer saber das suas vontades e opiniões, uma forma de incompetência relativa no meio onde se insere. Em nenhuma delas pode haver brilho que se atribua ao demissionário. Há ainda a de tipo 3), a preventiva, em que o demissionário percebe que está prestes a ser despedido e se antecipa para, como se diz na política dos dignos vencidos, possa “sair pelo seu pé”. Pior, há a demissão de tipo 4), em que o demissionário tenta sair antes de a Polícia Judiciária lhe levar o computador para averiguações, e a de tipo 5), a mais frequente, em que um governante diz que pede a demissão depois de lhe ser dito que vai ser demitido. Não, nada disto é virtuoso e só espelha falhanço. Ressalva-se a de tipo 6), em que, por motivos de saúde pessoal ou de familiar, a pessoa tem mesmo de mudar de vida. Todavia, é comum transformar um pedido de demissão dos tipos anteriores, em particular de tipo 5), em tipo 6).  

Basicamente, o demissionário aproveita uma circunstância apropriada para se pôr ao fresco, assumindo “responsabilidades”, exatamente para não ter de responder por elas, esperando que a coisa passe, seja esquecida ou substituída por outra pior. A coisa mais vergonhosa que pode existir em política é um governante dizer que quer sair porque é responsável de uma qualquer coisa que decidiu não resolver. Não há nobreza nisto, há cobardia. Pior ainda quando o ministro cessante acaba num conselho de administração de uma empresa de construção civil depois de ter afirmado que se demitia na sequência da queda de uma ponte. Foi só um exemplo de nobreza. Há mais. É a mesma coisa quando um governante, perante o caos para que contribuiu, assume responsabilidade de um acidente que nada tem a ver consigo e diz que vai nobremente sair, depois da “gota de água”, sem que tenha tido a mesma pulsão demissionária em face da cascata que torrencialmente lhe alagava o gabinete. Agrava-se a coisa quando o dito pedido é razão para levantar suspeitas sobre a atuação de profissionais sob a sua tutela, como é o caso quando um responsável de uma área se demite na sequência de um qualquer episódio ocorrido em áreas sob a sua supervisão, sem que esse episódio tenha sido investigado e esclarecidas as causas ou eventuais culpas que poderão nem existir. Ao dizer que sai por assumir responsabilidades, levanta suspeitas, lava as mãos, diz que já nada tem a ver com o assunto e cria culpados.  

Não há nada de nobre na fuga de um governante a quem as coisas não corram bem, a não ser que faça um ato de contrição e reconheça que não tinha competência para o cargo, enganou-se, ou que foi traído, convirá dizer por quem, e foi enganado. 

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