FERNANDO LEAL DA COSTA

LIXO – Na recente Cimeira dos Oceanos que decorreu em Lisboa, ouviram-se preocupações com o excesso de exploração dos recursos dos mares, com a poluição e consequente degradação dos ecossistemas. Foi bom que a conferência tivesse decorrido em Lisboa, até porque Portugal, mais do que ter uma extensa zona marítima, foi um pioneiro na exploração oceânica. E também foi bom que muitos dirigentes e responsáveis políticos, tal como cientistas, se tivessem deslocado a esta reunião. Se dela resultou ou resultará alguma coisa, veremos no futuro. Para já, podemos dizer que o assunto dos Oceanos foi apresentado às opiniões públicas mundiais. Mas não deve ter chegado a todas e seguramente faltou levar a mensagem a quem mais a deveria ter ouvido.

Foi com agrado que vimos pessoas de todo o mundo, de todos os continentes, a discursarem no encontro. Mas tenho sérias dúvidas do empenho de grande parte delas. Quem já visitou alguns países africanos ou asiáticos e da América Central e do Sul, não pode ter deixado de ficar chocado com a gigantesca acumulação de lixo, espalhado por todo o lado, amontoado em campos e cidades, cobrindo totalmente cursos de água, a ponto de não ser visível discernir o leito de ribeiros ou rios. Simplesmente não há recolha de lixo, e a prática dos habitantes locais é despejar tudo para onde calha, habituando-se a viver no meio da imundície. E é igual, ou pior, em cidades que existem junto do mar, onde as praias e os rios que lá desaguam são esgotos de material orgânico e inorgânico.

Ouvir falar os políticos e governantes desses países sobre preocupações com reciclagem e combate à poluição só pode ser anedota. Nada fizeram, nada fazem, para alterar o estado das coisas e a corrupção grassa entre muitos deles. Em tempos, numa grande capital africana, exasperado com o lixo que fazia montes nos passeios, a ponto de não serem visíveis as fachadas dos prédios para quem circulava de automóvel, perguntei porque não havia recolha desse lixo. Logo me explicaram que ninguém estava preocupado com a sujeira e, além do mais, a empresa responsável pela recolha era da filha do Presidente. Fiquei esclarecido.

Há um gigantesco trabalho de educação, de formação e de organização que ainda tem de ser feito na maioria dos países africanos, asiáticos e da América Central e do Sul no que diz respeito ao destino do lixo. É certo que os países mais desenvolvidos poderão ser os principais poluidores e ainda bem que estamos a percorrer o caminho da reciclagem e descarbonização da atmosfera. Mas o esforço não pode ficar-se pela América do Norte, Europa e parte da Ásia e Oceânia. Tem de se exigir empenho e esforço real dos educadores e governantes dos países onde o subdesenvolvimento também se vê e cheira pela forma como as populações lidam com os resíduos que produzem. Não podem ser só os europeus e norte-americanos, a que podemos juntar japoneses, singapurenses, australianos e neozelandeses, seguramente também outros que seria fastidioso enumerar, a lutar pela despoluição dos rios e mares. Convirá que se envergonhem os que aceitam governar países onde o lixo se acumula sem que nada seja feito para contrariar essa acumulação. E não, a culpa não é de antigos colonizadores, nem do “desenvolvimento” do consumo em economias emergentes. Nem é da pobreza material, sendo que está associada à pobreza educacional que segue de perto a primeira. A culpa e a responsabilidade são de quem vive e manda em nações cujo estilo de vida é coabitar com a porcaria.A culpa também é de quem não quer saber e de quem não os obriga a saber. Os países mais desenvolvidos não podem ser apenas doa- dores, têm de exigir mais daqueles a quem se dão recursos que se esbanjam sem olhar a prioridades e aos interesses de todo o mundo. O destino do lixo é uma delas.

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