FERNANDO LEAL DA COSTA

O SROOGISMO – Natal e Ano Novo são um “horror” de acumulação de gente. O período das “festas” é, reconheço, um péssimo exemplo de pretexto para a congregação humana e consequente transmissão de doenças contagiosas. É normal que haja quem, face ao aumento de casos e consequente incremento de internamentos e mortalidade devida à COVID-19, tenha surgido a criticar uma suposta falta de exigência na contenção social por altura do Natal.  

Sinceramente, acho que repreender as pessoas que tentaram estar ou estiveram com os seus próximos nos dias 24 e 25 de dezembro de 2020 será uma enorme hipocrisia e falta de sensibilidade. Para muitos de nós cada Natal é a última oportunidade de estar com os mais idosos antes que a vida lhes falte, com ou sem COVID, reencontrar filhos e netos, rever parentes longínquos. Houve quem o tivesse feito com contenção, bom senso, sem descurar máscaras e distanciamento. Nada me diz que a maioria das reuniões familiares nessa altura do ano tenha sido feita com a mesma dimensão de anos anteriores. Não podemos aceitar argumentos “zangados” quanto a uma suposta falha da Nação por se ter juntado, ainda que parcelarmente, em pequenos convívios familiares. Simplesmente, não há evidência que possa condenar a ceia de Natal como o principal motor do agravamento da pandemia em janeiro de 2021. Muito menos se a desligarmos do não cumprimento generalizado do uso de máscara, da aglomeração de pessoas em espaços de comércio ou do arrefecimento invernal.   

A perda de contacto social, a que a pandemia vigente nos obrigou, é uma excelente oportunidade para os egoístas, eremitas, solitários, meditantes, distraídos e esquecidos, fazerem valer o seu ponto de vista. Dickens era um visionário. Como teria sido o seu “Conto de Natal” em anos da COVID? Não sei. A verdade é que quando foi escrito, em 1843, não havia antibióticos, a quase totalidade das vacinas estava por inventar e a incidência diária de infeções era incomparavelmente maior do que agora. De mortalidade, nem vale a pena falar. Não tenho dúvida de que há epidemiologistas modernos a torcer pela prevalência do ponto de vista do Ebenezer. Para eles chegou a hora do Scroogismo. Têm mais medo da COVID do que de fantasmas. Vendo bem, a primeira existe, e sobre os segundos há grandes dúvidas. 

Em qualquer caso, o uso de argumentos “assustadores” só faz sentido se a argumentação for racional e sustentada em factos, não apenas em opiniões, enquadrados no contexto humano em que as doenças se desenvolvem. Os Scroogistas mais radicais, os que nem o Natal nos querem deixar gozar, poderão estar cheios de razão, a mesma razão com que os estudos populacionais de saúde mental nos mostram níveis atuais de ansiedade e depressão muito superiores aos dos nefandos tempos da troika. Uma coisa é certa, temos de acabar com a pandemia sem acabar com o Humanismo. Sem ele, até podemos estar vivos mas não existirá Humanidade. 

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