FERNANDO LEAL DA COSTA

O BOM SENSO – A situação atual de emergência sanitária realça as dificuldades de compatibilização da decisão política com as necessidades de saúde pública. Todos sabemos como a política tradicional, a da governação em particular, é avessa à saúde pública. Se é certo que a saúde é um elemento essencial do julgamento dos eleitores, também é verdade que a maioria da população é saudável e não recorre habitualmente aos serviços de saúde, acrescendo que as intervenções na saúde populacional raramente produzem resultados visíveis no intervalo de uma legislatura. Logo, a governação da saúde funciona sempre numa lógica de mitigação e quase sempre em torno da garantia de acesso aos serviços, meios de diagnóstico e de tratamento, preferencialmente, sem grande despesa pública. Com a pandemia da COVID-19 há elementos “novos” à escala mundial. Trata-se de uma doença infecciosa com mortalidade reduzida mas muito assustadora, consumidora de recursos e para a qual não há tratamento nem, tão-pouco, medidas preventivas primárias de eficácia elevada. Sendo assim, os governos encaram a pandemia como mais um desafio que se coloca essencialmente no que ao acesso aos serviços diz respeito, no fundo como é habitual com as doenças respiratórias invernais, com o acréscimo de haver mais necessidades de internamento e suporte ventilatório mecânico. Em suma, o primeiro desafio é responder com uma capacidade que não pode, nunca poderia, crescer à velocidade a que a pandemia se estende. Depois há todo o problema das medidas de mitigação, a prevenção possível, da propagação do vírus. Para lá da quarentena de dimensão populacional, com custos económicos e sociais já testados e experimentados, nada é verdadeiramente eficaz de forma universal e total. Tudo o que se tem feito radica em conhecimentos passados, experiência clínica e epidemiológica escassa e raciocínio por extrapolação. O segundo desafio tem sido o de definir medidas de atuação ao nível da prevenção primária sem ter um quadro teórico completo e sem vacinação nos próximos meses ou, quem sabe, anos. Depois ainda há desafios que resultam da dificuldade de implementar rastreios de base populacional com eficácia e significado epidemiológico útil em tempo real e a ausência de tratamento eficaz das formas clinicamente pouco severas. Para completar, sabe-se pouco sobre o valor da imunidade individual e de grupo face à exposição ao SARS-Cov-2. Tudo isto num contexto em que o pânico populacional foi substituído por um estado que oscila entre o enfado e a resignação. O resultado, apesar de muito conhecimento que tem sido acumulado, é que as decisões políticas têm de ser tomadas num contexto de falta de evidência científica consolidada. A tão desejada política de saúde pública baseada na melhor evidência, quando mais precisávamos dela, é essencialmente impossível. Resta-nos o instrumento mais poderoso e relevante, seja em que cenário for, para a condução das actividades humanas: o bom senso. Acima de tudo, é o que nunca poderá faltar.

 

 

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