ANTÓNIO VENTURA

UM HOMEM DE HORIZONTES – Nascido de uma família em que a vinha era a cultura de eleição de muitas gerações, António Ventura conta com várias distinções ao longo do seu percurso profissional, que o deixam de alma cheia e profundamente grato aos que o ajudam todos os dias a atingir objetivos. Já com 40 anos de carreira, gostaria de a poder terminar fazendo o vinho dos 50 anos, que teria que ser mesmo o vinho da sua vida. 

Quem é António Ventura? 

Nasci numa pequena aldeia do concelho do Cadaval, de seu nome Painho, num meio rural onde a vinha estava profundamente enraizada como cultura de sustento das famílias, e acontece que, na minha, a vinha era a cultura de eleição de muitas gerações. Foi assim com alguma naturalidade que iniciei a minha formação académica em Santarém, na Escola Superior Agrária, licenciei-me mais tarde na Universidade de Évora, em Agronomia, fiz uma pós-graduação em Viticultura e Enologia, na Universidade de Geisenheim, na Alemanha, uma outra na ESB, Universidade Católica do Porto, e posteriormente viajei para a Austrália, onde obtive o Associate Diploma of Applied Science, em Viticultura e Enologia, na Charles Sturt University, NSW. 

Nos momentos ligados à enologia, quais ficaram registados como inesquecíveis? 

As várias distinções que me têm sido entregues ao longo da minha já longa carreira de 40 anos são sempre momentos inolvidáveis, mas os mais especiais serão os prémios de Enólogo do Ano em 2005, pela revista Néctar; em 2013, pela Revista de Vinhos; e em 2016, Enólogo de Mérito, pela revista Paixão pelo Vinho. Também o Prémio Carreira, em 2019, pela CVR do Tejo e pela Confraria da Nossa Senhora do Tejo, e já em 2021, o Prémio Prestígio, pela Associação dos Municípios Portugueses do Vinho. Todas as distinções em particular têm para mim um significado muito especial pois são o reconhecimento do meu trabalho e do meu percurso profissional enquanto enólogo. É evidente que, após 40 anos de carreira, ver reconhecido que o meu contributo para o vinho português tem sido merecedor destes prémios deixa-me de alma cheia e profundamente grato aos que me ajudaram e ajudam todos os dias a atingir os objetivos a que nos propomos. Sem eles e sem o apoio da família não seria de todo possível. 

Sendo consultor por todo o território nacional, tem a noção de que temos um país com capacidades a nível mundial? Como classifica as diferentes regiões? 

Sou cada vez mais um apreciador dos mais variados estilos de vinhos, porque cada vinho deve ser entendido e apreciado na história, no contexto e no terroir de cada região, e os vinhos bons quase sempre têm uma história para contar. E como sou também um amante de história, cada vez me interesso mais por “vinhos de nicho”, como por exemplo os verdadeiros vinhos de talha, os brancos de curtimenta ou os vinhos medievais de Ourém, entre outros autênticos “tesouros” que ainda são desconhecidos de muitos apreciadores. Mas falando especificamente de regiões vitivinícolas e das suas potencialidades, eu diria que temos as regiões que já têm nome feito pela sua história e pelo sucesso dos seus vinhos, como Douro, Dão, Bairrada e mais recentemente Alentejo, e aquelas que se estão a afirmar cá dentro e por vezes até mais lá fora, como acontece com os fenómenos das regiões de Lisboa, Vinhos Verdes, Península de Setúbal e Tejo, com quotas de mercado surpreendentes na exportação e a subirem a sua fatia no mercado interno. 

Algumas das que mais me desafiam pelo seu potencial ainda um pouco escondido são Beira Interior e Trás-os-Montes, capazes de originar vinhos de grande nível. Mas sobretudo o que me deixa de coração cheio é o sucesso crescente que os vinhos portugueses atingem por todo o mundo e o reconhecimento do seu elevado nível qualitativo. Este é o resultado do magnífico trabalho de todos os intervenientes da fileira, a começar pelos viticultores, enólogos, instituições como o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), a Viniportugal, e sem esquecer as Comissões Vitivinícolas (CVR) das várias regiões, com o seu trabalho laborioso e de proximidade com os produtores. 

Com toda a sabedoria que o preenche, que conselhos e avisos daria à nova geração de enólogos? 

A nova geração de enólogos é a mais bem preparada de sempre e está a fazer um trabalho de enorme valor, portanto não considero que necessite dos meus conselhos ou avisos, no entanto posso referir brevemente o que foi a evolução da profissão nos últimos 40 anos, que são precisamente os anos que levo de carreira profissional. É necessário referir que quando saí a primeira vez de Portugal para fazer uma especialização em Geisenheim, não existia ainda por cá um curso superior de Enologia, e apesar de o conteúdo que nos ministravam ser de muita utilidade, faltava, no entanto, matéria de cariz científico para nos podermos equiparar ao ensino nesta área em França, Alemanha ou até mesmo Espanha. Portanto, se queríamos evoluir, um dos caminhos era aprender com quem tinha uma larga experiência. Neste caso tive imensa sorte em que o Octávio Pato tivesse aceitado ser o meu mestre, pois a família Pato em várias gerações detinha muito do conhecimento avançado que existia então nesta área. Outra opção era ir para fora do país aprender onde existiam mais meios e conhecimento, que foi o que fiz na altura com uma bolsa de estudo bastante generosa de uma fundação alemã. Hoje felizmente a realidade é bem diferente e temos em Portugal, além de um curso específico de Enologia de excelência, muita formação de enorme qualidade em várias instituições de ensino superior, nomeadamente pós-graduações e mestrados que estão ao nível do melhor nesta área a nível europeu. No entanto continua a fazer sentido ir por aí conhecer diferentes realidades, novas tecnologias, muitas vezes conhecimento ancestral que está nos sítios mais insuspeitos. As novas gerações de enólogos viajam muito mais e isso só lhes traz valor acrescentado e mais cultura vínica. No meu caso foi a descoberta que me ajudou a “abrir novos horizontes”. 

Vinhos de qualidade vs quantidade? 

Qualidade e quantidade não têm que ser incompatíveis e cada vez mais temos bons exemplos de que podem até coexistir pacificamente, como é demonstrado por algumas das maiores e mais bem-sucedidas empresas portuguesas, que têm no seu portefólio vinhos que vão desde os 5 aos 500 euros. Do ponto de vista meramente técnico, para mim é tão desafiante fazer uma referência que vende 5 milhões de garrafas a 5 euros, como fazer outra referência que vende 800 garrafas a 500 euros, e desengane-se quem pensar que é mais fácil fazer os grandes volumes, porque o que existe de mais desafiante na profissão de enólogo é manter a consistência de uma marca ao longo dos anos sem quebra de vendas e sei do que falo porque trabalho com ambos os segmentos. 

Nos últimos anos o vinho português “impôs” a sua qualidade ao mundo alicerçado em pilares de enorme consistência qualitativa, mas também do seu know-how em vinhos de lote de quantidades apreciáveis. Não podemos esquecer que algumas das enormes cadeias de distribuição mundiais, quando colocam um vinho na totalidade da sua rede, podem fazer uma encomenda mínima a rondar um milhão de garrafas e para isso é necessário ter massa crítica e dimensão. Por outro lado, os vinhos exclusivos ou vinhos de nicho são especialidades que exigem uma “forma de arte” distinta e normalmente visam os consumidores que procuram desafios diferentes e distintos do vinho mais comum. Têm o seu mercado próprio e claro que dão ao enólogo a satisfação da “arte pura” e do desafio do fazer diferente. Como dizia, são diferentes desafios mas que podem coexistir e complementar-se, visando obviamente consumidores de diferentes segmentos. 

No mundo da enologia todos os enólogos têm um caminho que gostariam de fazer. No seu, o que lhe falta caminhar? 

Cada vez mais dedico algum do meu tempo a projetos especiais, de produtores em diversas regiões alicerçados em vinhos desafiantes, incluindo o meu próprio projeto Zavial que nasceu com um vinho da casta Syrah em 2015 e agora se complementa com um Pinot Noir da colheita de 2017 e com um branco de curtimenta vinificado em lagar de pedra com pisa a pé, numa parceria com a Vidigal Wines, que se responsabiliza pela comunicação, imagem e distribuição nacional e exportação. Este projeto pessoal resultou, no início, de uma enorme vontade de dar continuidade ao legado dos meus antepassados e, posteriormente, da necessidade de fazer crescer uma pequena exploração para uma área que permitisse uma operação minimamente rentável com uma gestão sempre racional e com os pés bem assentes na terra. Para mim, a paixão é fundamental e está sempre presente, mas sem nunca esquecer que a paixão termina quando não se pagam as contas. Hoje temos um pouco mais de 40 ha de vinhas na região vitivinícola de Lisboa, que produzem vinhos IGP Lisboa e alguns DOC Óbidos, e temos também alguma floresta como atividade complementar. 

Qual a sua ambição neste momento? 

Gostaria de poder estar em plena posse das minhas faculdades por mais 10 anos para terminar a minha carreira fazendo o vinho dos 50 anos, que teria que ser mesmo o vinho da minha vida. Isso, sim, seria terminar em beleza com um vinho ímpar. 

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