CARLOS ZORRINHO

FLORES DE PAPEL

Num dos múltiplos contactos recentes com a realidade africana, no quadro do meu mandato e das minhas funções no Parlamento Europeu, encontrei-me com a ministra da Educação de um país que, estando relativamente mal colocado nos diversos indicadores do desenvolvimento, fez nos últimos anos um surpreendente progresso no nível de escolarização das suas crianças e em particular das raparigas.

Tinha uma enorme curiosidade em perceber o porquê, tanto mais que não havia notícia de haver algum programa internacional específico em aplicação no país, para eletrificar e equipar escolas, formar docentes, apoiar famílias com crianças em idade escolar ou financiar outras iniciativas na linha daquelas em que normalmente pensamos, quando queremos melhorar as condições de educação e formação em contextos vulneráveis. A lição da ministra foi de uma simplicidade e uma sabedoria extraordinária.

“Conseguimos, não foi muito, mas conseguimos”, disse-me ela, “porque temos vivido um ciclo de relativa estabilidade política e social e isso permitiu mobilizar as comunidades e alguns recursos públicos para limpar, fazer pequenas obras e dar importância à escola”. “Depois”, continuou, “enviámos para as escolas material escolar. Enviámos livros, papel, canetas e muitas folhas de cartolina e papel vegetal colorido, e com esse papel os estudantes fizeram flores e muitas outras pequenas coisas e perceberam que com um pouco de criatividade e vontade podiam criar coisas suas, expressar a sua identidade, trabalhar em colaboração e serem reconhecidos”.

“Fizeram exposições e a comunidade orgulhou-se deles e eles da comunidade. As histórias passaram de bairro em bairro e de aldeia em aldeia, e cada um quis mostrar como estava incluído num caminho diferente da fragmentação e da exclusão que vai enfraquecendo o grande continente. Criámos um movimento. Espero que o movimento se continue a encher de esperança e não venha a desaguar na frustração. Esse é o meu sentido de missão”, concluiu a minha interlocutora.

Partilho esta história, pela sua riqueza própria, mas também porque ela é uma alegoria do que temos que fazer para promover o desenvolvimento inclusivo e sustentável em África, e também na Europa e em todo o globo. É preciso dar aos cidadãos, em particular aos mais jovens, não soluções requentadas e desenhadas sem os envolver, mas antes, os recursos para eles próprios escolherem o caminho da sua afirmação e realização.

Sei que esta crónica é tributária do velho provérbio: “Dá ao Homem um peixe e ele se alimentará por um dia. Ensina-o a pescar e ele se alimentará por uma vida”. Mas se é tributária na inspiração, é também uma demonstração da importância de o aplicar, conhecendo o mar, respeitando o peixe e tendo um foco no pescador, na sua cultura, na sua vontade, na sua comunidade e na sua felicidade. Nas flores que sabe e quer fazer.

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