CARLOS ZORRINHO

NATAL EM METUGEMetuge é um dos 17 distritos que compõem a província de Cabo Delgado no norte de Moçambique. Na sequência da insurgência radical que tem vindo a assolar aquele território, a Metuge chegaram cerca de 150 mil deslocados, dos quais 114 mil crianças, triplicando a população de uma terra pobre e sem estruturas para dar respostas de sobrevivência básica, saúde ou educação a todos os que se vieram agora somar aos seus habitantes tradicionais. No âmbito de uma missão de observação a Cabo Delgado, que liderei como copresidente da Assembleia Parlamentária Paritária África, Caraíbas e Pacífico – União Europeia, visitei no início de novembro um dos campos de Metuge e senti o desespero de quem foi obrigado a deixar para trás as suas terras, os seus familiares e os seus sonhos, e acorda a cada manhã na incerteza de ter água para beber, algum arroz para comer ou um medicamento simples se uma simples doença o atacar.  

Esta crónica não visa analisar o que conduziu à catástrofe securitária e humanitária de Cabo Delgado. Sobre isso escrevi relatórios, fiz intervenções e escrevi vários textos ainda com os olhares, os cheiros e as palavras bem presentes em mim. Foi gratificante verificar que o esforço que fizemos no Parlamento Europeu para dar mais visibilidade ao problema e exigir mais foco e mais recursos para a cooperação da União Europeia, foi correspondido com missões de ajuda humanitárias e de treino e equipamento das Forças Armadas moçambicanas, que todos reconhecem como sendo importantes contributos para uma solução. É necessário persistir num esforço conjugado das autoridades locais e regionais, da sociedade civil, das organizações não-governamentais e da comunidade internacional, para que seja possível retomar a esperança e a paz em Cabo Delgado. 

Quando deixei Moçambique, num momento em que o mundo discutia o combate às alterações climáticas numa Conferência do Clima (COP 26), em que o repetir das metas e dos slogans soube a pouco face ao egoísmo de muitas práticas reiteradas, verifiquei também a preocupação crescente com o facto de a disrupção nas cadeias globais de produção poder ter consequências no acesso a alguns dos bens e serviços que fazem parte da vaga de consumo com que cada vez mais se celebra o Natal em muitas partes do globo. Em Metuge, ao medo da violência espalhada pelos grupos radicalizados, soma-se o medo da carência extrema se falharem os apoios humanitários e o medo de que as frágeis tendas possam ser arrasadas por temporais, ciclones ou furacões que também naquela parte do globo são cada vez mais ameaçadores. 

Nesta crónica de dezembro desejo a todos um bom Natal, festa da família, da partilha, da memória e da harmonia. Mas apelo também que não nos esqueçamos que em Metuge também é Natal, e lá, como em cada vez mais terras de desespero por esse mundo fora, a humanidade será confrontada com o caminho de desigualdade e destruição que tem trilhado. Cada um de nós é. 

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