CARLOS ZORRINHO

A TRIBO-  No seu conhecido livro A Tribo do Futebol, Desmond Morris apresenta o futebol como uma contrapartida moderna do padrão primitivo da caça e da afirmação pela pertença e pela sobrevivência dos humanos organizados em tribos. A imagem, que deve ser contextualizada à luz da apreciação etológica que o autor aplica, ganha atualidade quando analisamos o impacto de certos fenómenos desportivos e da reação das massas adeptas perante os seus resultados. 

Desde muito novo que sou um entusiasta do desporto e do futebol em particular, quer como adepto, quer como praticante, esquerdino e polivalente, ainda que mais dotado de um intenso gosto de jogar do que de habilidade especial para o fazer. Respeitando todos os emblemas, sou um fervoroso Sportinguista, condição que herdei essencialmente do meu Pai, mas que tem raízes em toda a família, raízes essas que se multiplicaram e prolongaram com vigor para os meus filhos. Escrevo este texto apenas dois dias após o Sporting se ter sagrado campeão nacional de futebol, após 19 anos de tentativas falhadas e depois de ter vivido em anos recentes uma profunda crise desportiva e de gestão. Foi um campeonato ganho num contexto muito especial e com uma equipa jovem e profundamente motivada. 

As circunstâncias da vida profissional e dos calendários desportivos fizeram com que o título tivesse sido alcançado quando me encontrava em Bruxelas. Comemorei-o de forma cautelosa, mas efusiva, com alguns amigos com quem acompanhei a transmissão do jogo decisivo e depois, usando os meios de comunicação à distância, celebrei e comovi-me com muita gente, com laços diversos, mas que é parte da tribo dos que comigo vivem no dia a dia as aventuras e as desventuras do nosso clube do coração. Não escrevi clube do coração por acaso. Ser adepto é uma mescla racional e emocional, mas em que nos momentos determinantes, a emoção, ainda que controlada, comanda a razão. Foi com plena consciência desta realidade que assisti também, obviamente preocupado, aos excessos praticados nas comemorações que brotaram em todo o país e em especial em Lisboa, onde o jogo se realizou e onde ocorreu depois o desfile da equipa na mítica rotunda do Marquês de Pombal, aguardado com ansiedade há quase duas décadas pelos adeptos leoninos.  

Termino a escrita desta prosa quando no país é intenso o debate sobre o que correu bem e o que correu mal nas comemorações do título, o que poderia ter sido planeado e não foi e os riscos que daí podem advir. Sucedem-se as frias análises dos especialistas, todos com a sua quota-parte da razão. Há obviamente uma aprendizagem a fazer, embora espere que nunca mais um título desportivo seja comemorado no contexto pandémico em que este foi.  Mas a razão não chega para lidar com estes fenómenos, e quem pensar o contrário, está apenas a enganar-se a si próprio. 

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