CARLOS MINEIRO AIRES

CONSTRUÇÃO – A CHAVE DO DESENVOLVIMENTO 

Vivemos num mundo com diversos estados de desenvolvimento e realidades díspares, em que a qualidade de vida é mensurável a partir de indicadores infraestruturais, mas onde na maior parte dos países quase tudo se encontra por fazer ou por reconstruir devido às guerras, o que aporta acrescida importância à indústria da construção. 

Apesar do descrédito em que a Organização das Nações Unidas (ONU) caiu, há que reconhecer o imenso trabalho feitopelos seus órgãos subsidiários. O papel da ONU não se esgota na incapacidade de mediar conflitos, antes pelo contrário, destacando-se em muitas outras atuações, nomeadamente de cariz humanitário. 

Em 2015, quando era mais fácil sonhar, a ONU estabeleceu a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, um plano global inclusivo com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas para, de forma integrada, erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir paz e prosperidade até 2030, nas áreas económica, social e ambiental. Tal como em muitas outras boas intenções, o calendário não vai ser cumprido, sobretudo depois de o Governo Federal dos Estados Unidos ter decidido abandonar a maioria das organizações internacionais quehistoricamente motivou e integrou. 

Vivemos num mundo com diversos estados de desenvolvimento e realidades díspares, em que a qualidade de vida émensurável a partir de indicadores infraestruturais, como, por exemplo, percentagem da população com acesso a abastecimento de água e saneamento básico, a alimentos, à saúde, à educação, à habitação, os quilómetros de rede viária, etc., mas onde na maior parte dos países quase tudo se encontra por fazer ou por reconstruir devido às guerras, o que aporta acrescida importância à indústria da construção que está presente, direta ou indiretamente, em 15 ODS. 

Dimensão nacional 

A nível nacional, o papel económico e social da indústria da construção civil e de toda a fileira que lhe está associada é, pela sua dimensão e criação de valor, da maior importância para a economia, pois resolve problemas e carênciasfundamentais, cria riqueza e emprego e melhora condições de vida, quer interna quer externamente. 

Apesar dos elevados fluxos financeiros que os quadros comunitários canalizaram para Portugal e que nos permitiram inverter situações de graves atrasos crónicos e mudar significativamente a face do país, ainda temos muita obra por fazer, sobretudo na habitação, na ferrovia, aeroportos, acessibilidades, portos, centros de dados, etc., o que, de acordo com a estimativa do Governo, corresponderá a investimentos na ordem dos 60 mil milhões de euros a realizar na próxima década. 

O mercado, onde a oferta não tem faltado, quer nas obras públicas (em 2025 o crescimento deve ultrapassar 80% em relação ao período homólogo), quer nas privadas, tem permitido que as empresas cresçam e que o emprego não falte, a que acresce o facto de as nossas maiores empresas prosseguirem a sua atividade internacional por razões que se repartem entre a vocação e a precaução, porque, em boa verdade são poucas as empresas que não estão preocupadas com o futuro a médio prazo. 

Existem obviamente aspetos menos positivos, como as questões relacionadas com a recessão demográfica e com a necessidade de sermos capazes de reter talentos, inverter a emigração e promover o retorno dos que saíram, para além de fomentarmos a atratividade das profissões conexas e do país. Teremos de saber acolher e dar formação aos que nos buscam para trabalhar e viver, e que hoje constituem a única solução para um grave problema de dimensão nacional, a falta de mão de obra. 

Práticas de sustentabilidade 

Para além das preocupações sociais e ambientais, hoje já vertidas na governação das maiores empresas, as práticas de sustentabilidade também constituem um tema permanente e transversal para a promoção pública de uma atividade que gera impactes significativos, mas que está apostada em demonstrar uma nova postura e imagem, assente na inovação e na assunção de novas atitudes que constituem vantagens estratégicas e visam que o setor da construção seja mais sustentável, mais eficiente e mais circular, em linha com as exigências ambientais, onde a crise climática leva a compromissos com as metas da descarbonização, a eficiência material, a eficiência energética, a eficiência hídrica e a transição digital, entre outros, e a constituírem novos paradigmas de atuação.  

As empresas reinventam-se e adaptam-se, tendo começado a apostar na digitalização e industrialização da construção como forma de dar mais rápida resposta a emergências, como é o caso da habitação. 

Oportunidades para as empresas 

As grandes obras públicas que estão anunciadas terão, pois, de constituir oportunidades para as empresas portuguesas, sem prejuízo das alianças que estas entendam estabelecer com empresas de outras origens, caso a necessidade o justifique, mas nunca incentivadas pelo Estado, pois existe capacidade de organização e de liderança testada nas mesmas circunstâncias e também em cenários internacionais. 

É fundamental apostar em boas práticas de planeamento na área das obras públicas, procedimento que tem vindo a ser institucionalmente desvalorizado, pois na ausência de planeamentos concretos e realistas é muito difícil gerir investimentos e fundos e proporcionar às empresas conhecimento que lhes permitam dimensionar-se e preparar-se atempadamente para dar resposta aos desafios e oportunidades do mercado nacional. A par, urge rever o quadro legal e regulatório nacional, visando agilizar a contratação e reduzir a burocracia e a litigância, sem pôr em causa a transparência dos processos. 

Perante tamanha onda de investimentos e com as empresas em boa situação, não se compreende, pois, por que razão o Governo tomou a iniciativa de convidar empresas extracomunitárias para virem trabalhar e competir com as empresas portuguesas, onde se iriam debater com os mesmos problemas, mas provavelmente libertas de responsabilidades de outra natureza. 

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