CARLOS MINEIRO AIRES

A SEGUNDA VIDA DE SINES – Sines ressurge como uma solução capaz de contribuir para a autonomia energética da UE, que nunca deveria ter ficado dependente de vizinhos pouco recomendáveis. Para fazer face à dependência do gás natural, o porto de Sines poderá duplicar a capacidade do seu terminal de gás em menos de dois anos, servindo como polo de transshipment ou como ponto de alimentação de um gasoduto europeu.

No início da década de 70 do século passado o Governo de Marcelo Caetano decidiu criar um grande complexo industrial em Sines, apoiado num porto oceânico, o que iria modificar a vida rural e piscatória da região e o atraso em que se encontrava.

A decisão, que foi discutida e suportada em pareceres e pontos de vista de técnicos e políticos, tendo sido comparadas diversas localizações possíveis, revelou-se visionária, pois desde o início que tinha subjacente a meritória intenção de criar condições para que Portugal pudesse tornar-se autónomo em áreas cruciais como a energia, a petroquímica (refinaria) e o tratamento de matérias-primas de diversa natureza e, a par, canalizar e centrar investimentos para o desenvolvimento de uma região empobrecida.

A localização ímpar de Sines permitia construir o porto de águas profundas mais ocidental da Europa, junto às rotas atlânticas e próximo das Américas e do canal do Panamá, em condições concorrenciais. Terrenos baratos contribuíram para a possibilidade de criar um inovador centro de competências com emprego mais qualificado e mais bem remunerado, o que veio a revelar-se uma excelente decisão política.

Em meados de 1971 foi criado o Gabinete da Área de Sines (GAS) a quem foram cometidas as ações de planeamento e coordenação das múltiplas infraestruturas previstas e que durou até 1988.

O GAS assumiu uma dimensão importante, constituindo um exemplo da excelência da engenharia, dotado de meios adequados e até de laboratórios próprios, tendo inclusivamente absorvido muitos técnicos provenientes das antigas colónias, altamente qualificados e experientes.

Os acessos rodoviários, o abastecimento de água com base num transvase do rio Sado para a barragem de Morgavel, construída para o efeito, a par da edificação de raiz de uma cidade e de todos os serviços associados (Santo André), bem como de infraestruturas sanitárias (ETA e ETAR), aindahoje se mantêm e permitem perceber a dimensão dos investimentos iniciados há mais de 50 anos. Infelizmente, como sempre, as ligações ferroviárias estratégicas foram descartadas, nomeadamente à Espanha e à Europa, um erro que agora se procura corrigir.

Alterações no contexto mundial

A partir de 1973 ocorreu uma alteração complexa no contexto mundial, com um brutal aumento do valor do crude e a reabertura do canal de Suez, o que veio a liquidar os superpetroleiros que procurariam Sines e colocou em causa a viabilidade da refinaria aí prevista, quando ainda estava a ser iniciada a infraestruturação do complexo, o que dez duvidar e questionar o projeto, que só mais tarde, a partir do final dos anos 90, ganha um novo fôlego.

Tal como agora, uma crise energética gerou importantes ameaças que acabaram por não impedir que se instalassem empresas com dimensão e produções economicamente relevantes, cuja vida passou por ciclos mais ou menos complicados.

No final de 1991 assistimos à dissolução da URSS e à posterior criação da Federação Russa (FR), acontecimento com consequências que o Ocidente não foi capaz de perspetivar e, ingenuamente crente de que teria sido criada uma nova e tranquila paz económica e geopolítica, procurou uma maior proximidade com a Rússia, tendo, sobretudo a Europa, ficado fortemente dependente do seu gás natural e do petróleo.

Num quadro geopolítico, substancialmente diferente do vivido durante a Guerra Fria, a que acresce a afirmação crescente da China, não tendo sido perspetivada a possibilidade de conflitos militares, foi descurada a defesa do espaço europeu comum.

A invasão da Ucrânia veio pôr a nu as fragilidades das situações criadas, energéticas e de defesa, numa altura em que a transição energética depende do gás natural, enquanto fonte imprescindível.

Apesar das decisões comunitárias e da aposta nas fontes renováveis, caso de Portugal em que a eólica e a solar têm tido um assinalável crescimento, a produção da energia na Europa continua dependente dos combustíveis fósseis e os níveis das fontes alternativas ainda estão longe de serem uma solução, pois o seu carácter intermitente e os problemas de armazenamento constituem barreiras à sua rápida afirmação.

Busca de alternativas

As sanções agora aplicadas à FR que passam pelo corte desta dependência através de soluções que urge encontrar, obrigaram a UE, e não só, a procurar apressadamente alternativas para contornar o problema sem o consenso unânime de todos os Estados-membros.

Na busca apressada de alternativas, questionam-se decisões e retomam-se soluções que estavam a ser descontinuadas, caso das centrais a carvão, tendo a França anunciado um forte reinvestimento na energia nuclear para garantir a soberania energética.

É, pois, neste contexto que Sines ressurge como uma solução capaz de contribuir para a autonomia energética da UE, que nunca deveria ter ficado dependente de vizinhos pouco recomendáveis. Pelas condições ímpares que o complexo e o sucesso do porto de Sines reúnem, agora com suporte numa ligação ferroviária a Espanha e na modernização das acessibilidades rodoviárias, foi divulgado um conjunto de investimentos privados que poderão ascender a 17 mil milhões de euros até 2030 e que passam pela expansão do atual e pela construção de um segundo terminal de contentores.

Estão previstos investimentos nas áreas da energia e indústria, com particular enfoque nas áreas da energia e da indústria viradas para a descarbonização e para gases renováveis, onde a produção de H2 terá particular importância.

Para fazer face à dependência do gás natural, o porto de Sines poderá duplicar a capacidade do seu terminal de gás em menos de dois anos, servindo como polo de transshipment ou como ponto de alimentação de um gasoduto europeu.

Todavia, a concorrência europeia e a nossa localização periférica podem constituir entraves a algumas destas intenções, mesmo em cenários de complementaridade. Aguardemos.

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