CARLOS MINEIRO AIRES

Sinais dos tempos: achei-me ou descobri-me? Os Descobrimentos foram uma aventura ímpar na história da Humanidade, rumo ao desconhecido e sem ligações tecnológicas, a que só se assemelha a conquista do espaço, desde que salvaguardemos o devido enquadramento dos tempos, do conhecimento disponível e das tecnologias existentes. Confesso que nunca me perpassou pela cabeça escrever sobre temas que ocupam as redes sociais, nas quais a ignorância, a ousadia e mesmo o direito a pensar diferente são bandeiras. Foi a forma que encontrei para me associar ao 14.º aniversário da FRONTLINE e desejar-lhe um futuro com a solidez e perenidade dos nossos monumentos, porque faz parte da história e é referência editorial no país. As minhas ligações a África, passadas, presentes e espero que futuras, assim como ao Brasil, para não sair do universo da Lusofonia, aportaram-me conhecimento e deram-me a visão distanciada de quem comeu pirão e a quem o racismo nada diz, e desde que tomou consciência política sempre apoiou os movimentos de libertação das colónias, porque sempre me questionei como se sentiria um português durante os 60 anos da ocupação filipina de Espanha, salvaguardadas as devidas diferenças. 

 Uma guerra de ideias 

Sou de uma geração em que nos proibiram de pensar e ter opinião, de uma geração que foi forçada a ser adulta demasiado cedo e a combater numa guerra que exauriu o país de meios, massacrou os mais jovens e que a nada conduziu em termos de vitórias militares. Nunca se tratou de uma guerra racial, que opusesse negros contra brancos, mas sim de ideias, formas de pensar e políticas desatentas aos sinais dos tempos, como resulta do facto de, nos três teatros de guerra (Guiné-Bissau, Angola e Moçambique), os oponentes terem dirigentes e combatentes de ambas as raças, onde incluo mestiços, e onde sempre ocorreram casos de deserções políticas em ambos os sentidos, sendo que os portugueses que se passaram para a guerrilha muito nos espantaram aquando do seu aparecimento público depois do 25 de Abril, havendo do nosso lado tropas de elite constituídas por guerrilheiros que, em parte, optaram pelo inverso. Na verdade, foi um arrastar no tempo de situações que só podiam ter um desfecho político, o que o regime de então, embora ciente, escondia obcecadamente, ao ponto de termos ficado isolados na comunidade das nações, ou seja, orgulhosamente sós”. Quando comparados com outras potências colonizadoras, sempre fomos pequenos e pobrezinhos, sem capacidade humana, financeira e militar, o que nos conduziu à miscigenação e obrigou a concessionar grandes parcelas de território, as Companhias, para que outros as ocupassem, vigiando e defendendo o território e, até, emitindo moeda própria, o que lhes facilitava o controlo das populações locais. Posto isto, as análises dos factos devem sempre ter em conta o enquadramento dos tempos em que ocorreram, sob pena de tudo nos parecer ilógico e irracional. 

 Colonialismo e escravatura 

O colonialismo existiu em toda a África, em grande parte da América, da Ásia e da Oceânia, que foram ocupadas por grandes Impérios, sendo que algumas destas ex-colónias ainda continuam a içar, lado a lado com a sua, o símbolo protetor da potência colonizadora. Qualquer forma de colonialismo é inaceitável, mas quando é acompanhada de discriminações como o apartheid, ainda mais degradante se torna. Neste aspeto, o caminho dos portugueses foi, apesar de dislates pontuais, claramente diferente. A escravatura também existiu desde sempre: na Europa, no mundo árabe, onde se estendeu ao longo da costa africana do Índico, no Império Romano e nas culturas indianas e orientais, onde hoje ainda persiste e teve grandes oportunidades de mercadocom a colonização da América, ávida de mão de obra. É indesmentível que os navios negreiros de Portugal tiveram uma relevante atividade nesse degradante comércio, especialmente com destino ao Brasil e ilhas portuguesas, inabitadas de origem, o que seria do desconhecimento da maioria dos portugueses de então, mas que nada adiantaria face à passividade da Igreja que, na época, não só pautava a opinião e a forma de pensar, como também benzia as “cargas”. É bom não esquecer que a verdadeira dimensão do negócio foi exercida por negreiros de outros países, com destino às América do Norte, Central e do Sul, com origem basicamente na costa africana ocidental, mas sem qualquer relação ou respeito pela tutela colonial ou ocupação territorial da época. 

 Motivo de orgulho da nossa nação 

Hoje, cegamente e de forma ignorante, pretende-se fazer confundir a heroica saga dos Descobrimentos portugueses com o colonialismo e a escravatura. Os Descobrimentos foram uma aventura ímpar na história da Humanidade, rumo ao desconhecido e sem ligações tecnológicas, a que só se assemelha a conquista do espaço, desde que salvaguardemos o devido enquadramento dos tempos, do conhecimento disponível e das tecnologias existentes. Essa cegueira impede de ver que a motivação do desafio nunca poderia ser no que veio a resultar, porque à data da decisão seria impossível antever os efeitos da ganância e do verdadeiro fundo da raça humana. É como confundir o amor de um ato de conceção, em que o espermatozoide procurou o óvulo para criar um bebé bem-vindo e desejado pelos pais, com o serial killer em que se viria a transformar 25 anos mais tarde, e defender que deveria ter sido morto à nascença. Os Descobrimentos são motivo de orgulho da nossa nação, bem como a forma fraterna como nos relacionámos com diversos povos em todos os pontos do mundo, fazendo de nós mercadores e embaixadores de referência, o ainda hoje perdura no acolhimento que nos é dado em locais distantes. Por isso, é absurda a discussão em torno de uma obrigação, que é um dever nacional, de construirmos quanto antes um museu que permita divulgar a audácia e conhecimento da época. Mas ainda é mais absurda a discussão em torno da sua designação, sobretudo a proveniente de intelectuais complexados com a sua origem colonial e com ascendências comprometidas com a vergonha da escravatura. Quanto à inenarrável proposta de demolição do Padrão dos Descobrimentos, recordo que, para além de ser obra de interesse nacional para a arquitetura e engenharia, com intervenção de grandes mestres, está incluída na Zona Especial de Proteção do Mosteiro de Santa Maria de Belém e na Zona Especial de Proteção do Museu de Arte Popular, com ligação à Torre de Belém, que é monumento nacional e património mundial (UNESCO), por estar historicamente associado ao Mosteiro dos Jerónimos e aos Descobrimentos, e constitui património público sob gestão municipal. 

Sempre gostava de ver como sairiam deste “bico de obra”. 

One Reply to “CARLOS MINEIRO AIRES”

  1. Olá Carlos Mineiro Aires

    Nunca falamos sobre o tema deste artigo, mas uma vez que estou totalmente de acordo com o respetivo conteúdo, não posso deixar de aproveitar a ocasião para mandar as minhas felicitações e um abraço amigo.

    Frederico de Melo Franco

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