CARLOS MINEIRO AIRES

IMPACTO DA PANDEMIA – A coisa não está fácil… Volto à questão da evolução descontrolada da pandemia de Covid-19 e dos gravosos impactos da doença, sobretudo a nível económico e social. Estamos perante uma catástrofe sanitária de âmbito global, que não poupa países e ainda mal chegou às zonas mais pobres do planeta, onde, estou convencido, os impactos ainda serão mais devastadores, pela falta de infraestruturas e de recursos na prestação de cuidados de saúde, o que faz perspetivar que este combate está para durar, tanto mais que a inevitável retoma da mobilidade transcontinental irá assegurar a constante propagação do contágio. Os diferentes comportamentos dos países da comunidade internacional e dentro da própria União Europeia variam entre o inaceitável, como é o caso dos que deviam dar o exemplo, por serem mais desenvolvidos, e os que têm procurado encontrar soluções domésticas “à sua medida”, mais por falta de firmeza da liderança da OMS, que nunca conseguiu estabelecer e impor reações globais comuns e bem definidas como resposta única ao mesmo inimigo. 

Economia exposta ao turismo Limitando-nos à geografia do nosso país, o que não deixa de ser uma avaliação pouco coerente, porquanto não podemos fugir a fatores externos, teremos de contar com o pior, desde logo pelo facto de a nossa economia estar altamente exposta ao turismo. Também já vimos com o que podemos contar por parte dos nossos amigos, sendo disso primeiro exemplo o nosso mais velho aliado, o Reino Unido, nesta data o país com mais casos de infeção da Europa e o terceiro a nível mundial, que considerou que Portugal não é destino seguro para os seus cidadãos. Não fora o facto de estar obrigado a recato editorial, muito teria a dizer sobre esta decisão. É certo que a União Europeia optou por um critério que tem a ver com o número de contágios recentes por 100 mil habitantes, o que acabou por penalizar-nos devido à recente evolução do número de contágios na Região LVT, que vieram colocar Portugal em 2.º lugar, logo atrás da Suécia, embora a significativa distância. Missões comerciais de empresários veem-se impedidas de viajar e participar em feiras e mostras internacionais e de efetuar e consumar novos contratos. 

As chamadas de atenção e as capas dos jornais e telejornais não escondem o impacto da pandemia: 50 mil jovens no desemprego, mais de 190 mil empregos destruídos, corrida de 80 mil cidadãos à Segurança Social, novos pobres da classe média a recorrerem aos centros de apoio alimentar, queda do PIB acima dos dois dígitos, com vaticínios sempre com limites alargados, porque ninguém arrisca a ficar mal visto na previsão. Inevitavelmente, os problemas começam a aparecer e sem fim à vista. 

Setores em criseNo turismo, setor que muito contribui para a nossa economia, em maio, as dormidas caíram 95,0%, o que só pode agravar-se pelo péssimo sinal que foi a proibição de entrada de turistas portugueses em diversos países europeus, o que, desde logo, induz desconfiança nos que pretendem visitar-nos. As exportações sofreram uma forte queda em Abril, de quase 40%, onde a Espanha, França e Alemanha são responsáveis por mais de metade deste decréscimo. A TAP, que está em sérias dificuldades, é uma empresa que, quer queiramos quer não, é escolha prioritária dos portugueses, onde me incluo, pois gosto de me sentir em casa mal transponho a porta do avião, um sentimento que não consigo ter em outras companhias. A sua situação, que já era delicada, porque o negócio do transporte aéreo por razões concorrenciais e de oferta se transformou numa operação altamente otimizada, onde um cêntimo faz a diferença, tem sido favorecida pela fidelização, quer nas rotas domésticas, quer nas rotas da Lusofonia. Mas, à semelhança de sucedeu com quase todas as companhias aéreas, onde a sua dimensão relativa é despicienda, tem os seus 100 aviões praticamente parados, sem faturar e com encargos de leasing para cumprir, e uma preocupante situação sobre o futuro dos mais de 14 mil trabalhadores do Grupo, conforme ainda publicita no seu site, mas que hoje seguramente serão muito menos. Um grave problema económico e social, cujo desfecho certamente não será o melhor, mas que me custa perspetivar porquanto alguns dos que lá trabalham são amigos próximos. 

A EFACEC, empresa tecnológica nacional que emprega perto de duas centenas de engenheiros, também obrigou a uma intervenção de emergência do Estado que esperamos seja bem-sucedida. A par, teremos de reconhecer que desta vez a UE tentou prontamente desenhar e concertar mecanismos para apoio aos seus Estados-membros, cujo sucesso está dependente de uma unanimidade cada vez mais difícil de conseguir, pelo que, de crise em crise, vamos esfrangalhando o que resta da coesão do projeto europeu. 

Década de grandes investimentosEstamos, assim, na iminência de entrarmos numa década de grandes investimentos, tendo sido debatido na Ordem dos Engenheiros se Portugal terá capacidade técnica e empresarial para conseguir gastar 45 mil milhões de euros, de onde resultou o óbvio: não temos. Depois da crise de 2008 e da destruição das maiores empresas nacionais (em particular da construção) e de mais de 300 mil trabalhadores terem abandonado a profissão, hoje não temos empresas suficientes, nem sequer mão de obra, o que continuará a suceder se não for invertido o nosso deficit demográfico, que obrigará a pôr fim aos baixos salários que são oferecidos a jovens qualificados com elevado potencial, tanto mais que a contratação pública continua a incentivá-lo quando privilegia os preços mais baixos. A fatia de leão destes investimentos irá, pois, parar às mãos das empresas estrangeiras, ao que já nos habituámos, mas que nos diminui 

Neste quadro, também questiono se iremos ter tempo e condições para desenhar uma nova economia que torne o país competitivo e sustentável? Uma coisa é certa: o dinheiro não nasce do chão e só pode ser obtido a fundo perdido ou através de empréstimos remunerados. Assim, não tardará um novo sufoco e mais impostos. 

 

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