CARLOS MARTINS

SERVIÇOS PÚBLICOS DE ÁGUA – O valor da água. Continuamos a viver momentos complexos decorrentes deste vírus que vai marcar uma geração e nos coloca perante novos desafios, novas formas de estar e nos remete para mais reflexão sobre o futuro. Parece já assumido que os cidadãos vão ser agentes essenciais para que se possa alcançar algum sucesso neste processo designado de desconfinamento. Este período, que queremos curto, mas que não podemos limitar no tempo, determina novos comportamentos, o cumprimento de medidas de responsabilidade social e a valorização de ações individuais que concorram para interesses coletivos. 

Estas mudanças de comportamentos deverão merecer muito mais centralidade nos meios de comunicação e nas ligações em rede, que as tecnologias trouxeram para as nossas vidas em sociedade. Como nos diz Lamberto Maffei, no seu livro Elogio da Rebeldia, “no mundo há muitas pessoas que têm pouco a dizer, mas que, sendo poderosas e tendo à sua disposição os meios de comunicação, comunicam continuamente e criam ruído, confusão, porque é no ruído que conseguem esconder a banalidade da mensagem ou também a sua falsidade (). 

A água da torneiraO valor da água que consumimos na nossa torneira diariamente não está devidamente interiorizada nos utilizadores, mas também em alguns decisores, que ainda têm um olhar sobre o tema com contornos de política de curto prazo. Quando viajo, vou sempre na companhia de um cantil térmico de água, que encho em casa com água da torneira, mas um esquecimento determinou a necessidade de adquirir uma garrafa de água numa loja de apoio em área de serviço, onde por 33 cl paguei 1,35 euros. Este valor permitiria adquirir cerca de 1000 litros de água da torneira. Por outras palavras, 1 m3 de água engarrafada é vendida, neste caso, por cerca de 3000 euros. Recupero notícias recentes em que se procura mobilizar contra aumentos da fatura de água, onde 1000 litros de água ficam sempre a valor inferior a 1,20 euros.  

Recuperando palavras de Lamberto Maffei, “a vida rápida de hoje parece querer encurtar estes momentos demorados (de reflexão), como se fossem redundantes e supérfluos, luxos intelectuais que o homem (e mulher) moderno já não se pode permitir. Mas será possível pensar rapidamente? Se o pensamento requer a consideração de diferentes fatores e uma avaliação estatística da situação antes de qualquer decisão, parece difícil responder afirmativamente. Tentarei alinhar algumas ideias muito simples e alguns dados igualmente básicos, que permitam consolidar e difundir a importância de difundir o valor da água. A sustentabilidade económica destes sistemas públicos é a garantia de qualidade futura dos sistemas, da realização de investimentos de renovação e reabilitação das redes existentes e da sua expansão para os cidadãos que ainda não dispõem do serviço. 

Portugal conheceu uma política pública nos serviços públicos de água, que nos trouxeram reconhecimento internacional e sobretudo trouxeram aos portugueses uma melhoria significativa de qualidade de vida e impactos muitos positivos na saúde e esperança de vida. Se refletirmos sobre os valores de 1974, ficamos a saber que pouco mais de metade dos portuguese tinham água no domicílio, que os que dispunham do serviço não tinham água de boa qualidade, que menos de 3% dispunham de serviços de saneamento completo, eram já comuns nas cidades redes de coletores, mas de uma forma geral, os esgotos eram descarregados sem qualquer tratamento em ribeiras, rios ou zonas costeiras, com graves problemas de poluição. 

Água controlada de Boa Qualidade Atualmente, os serviços públicos de abastecimento de água servem 98% da população portuguesa, estando assegurada água controlada de boa qualidade em mais de 99% dos casos. Cerca de 90% estão servidos por sistemas de tratamento das suas águas residuais. Esse processo de universalização dos serviços públicos de abastecimento de água e águas residuais teve um investimento acumulado superior a 10 mil milhões de euros nos últimos 25 anos. A criação de competências técnicas e emprego especializado no setor, em entidades públicas e privadas, é reconhecida internacionalmente, onde os indicadores de gestão, a capacidade de regulação económica e ambiental servem de referência para muitos países e regiões do mundo. Em Portugal, as doenças disseminadas por via hídrica conheceram uma trajetória muito positiva nestas décadas e estão hoje em valores residuais. As nossas praias podem hastear bandeiras azuis num número que é referência mundial, onde a qualidade das águas balneares e dos areais tem forte conexão à eficiência de operação dos milhares de estações de tratamento de águas residuais. A qualidade da água que chega a casa dos cidadãos portugueses é hoje objeto de múltiplos sistemas de controlo, desde a sua origem, aos sistemas de tratamento, durante o processo de armazenagem e distribuição, assegurada por autocontrolo obrigatório, validado através de rede de laboratórios acreditados, tendo por base planos aprovados e controlados por uma entidade reguladora independente e pelas autoridades de saúde locais e regionais. Esta ideia de qualidade da água da torneira não está devidamente interiorizada, tive ao longo da vida situações, em várias regiões do país, em que memórias do passado continuavam a condicionar práticas de consumo dos cidadãos.  

Encontrei no Algarve pessoas marcadas por anos em que em alguns períodos do ano tinham consumos a partir de origens subterrâneas onde em determinadas condições se estava perante a designada água salobra, mas que não têm informação de que hoje a sua água da torneira tem uma certificação de água como produto alimentar, o que a coloca como uma das melhores e mais controladas do país. 

Valorizar os usos da águaPortugal está numa região onde se preveem problemas complexos com as alterações climáticas em termos de disponibilidades hídricas e por isso impõe-se uma outra forma de valorizar os usos da água, forma essencial para consumos mais eficientes e para a criação de condições para sustentar projetos de controlo de perdas nos sistemas públicos, mas também nos sistemas de rega agrícola, viabilizar investimentos a concretizar para levar por diante as medidas aprovadas e regulamentadas para a reutilização de águas residuais tratadas. 

A água é vida, passou a ser um slogan que damos por adquirido e hoje se aprende desde o infantário, mas estamos longe de lhe atribuir valor económico e compreensão da complexidade técnica que está por trás da segurança de abrir uma torneira em qualquer local do país e beber sem hesitar a água que nos chega a casa. Ainda há quem diga que ela cai do céu, mas em Portugal cai cada vez menos quantidade, de forma diversa no tempo e no espaço.  

Se a água é vida, importa dar à vida um valor maior, relembrando que a qualidade da nossa água contribuiu para uma melhoria significativa dos nossos indicadores ambientais e de saúde pública.  

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