CARLOS MARTINS

ÁGUA+

A política pública de gestão de recursos hídricos volta a estar no centro das preocupações, de alguma forma induzidas pela situação de escassez que, a intervalos de tempo cada vez menores, afeta territórios significativos do nosso país com consequências nas atividades económicas que têm na água um importante fator de produção.

Seguindo critérios estabelecidos de prioridade de uso, são impostas medidas que limitam a produção hidroelétrica, seguindo-se limitações a usos agrícolas, procurando dar prioridade a reservas para o abastecimento público às populações. Muitos de nós já vivemos a vida no conforto de ter água disponível em casa, com quantidade e qualidade, num simples gesto de abrir uma torneira. Essa facilidade associada à quase universalização do serviço e tarifas que não limitam a acessibilidade económica tem como contrapartida uma perceção que nos leva a dar pouco valor à água face a outros serviços, como a eletricidade, o gás, as comunicações. Acontece que podemos viver sem eletricidade, gás, comunicações, mas não resistimos à ausência de consumo de água. Os assentamentos humanos tiveram as suas origens em povoados, cidades, sempre na proximidade de água e a sua abundância sempre foi crucial para o desenvolvimento humano, desde a promoção de práticas agrícolas e mais desenvolvimento industrial e social.

Os cenários que procuram simular as situações futuras decorrentes das alterações climáticas têm vindo, infelizmente, a ser confirmados pela ocorrência de fenómenos climáticos extremos, verificando-se uma redução significativa da precipitação nas bacias dos rios nacionais e internacionais que correm no nosso território.

ÁREA DE RISCO

Portugal está localizado numa área de risco acentuado às consequências das alterações climáticas, e se recuarmos no tempo, identificamos em termos de recursos hídricos um território com distintas disponibilidades a norte e a sul do Tejo, com um período seco e húmido muito marcados a cada ano e com ciclos de seca regulares. Acontece que todos os esses registos históricos se estão a agravar, com problemas de escassez um pouco por todo o território interior, com fenómenos meteorológicos extremos mais imprevisíveis, com maior frequência e ciclos de escassez e seca em intervalos de tempo mais curtos. Nos últimos 20 anos os cálculos apontam para uma redução de cerca de 20% das disponibilidades e muitos dos cenários futuros vão no sentido de prever uma redução de outros 20% nas próximas duas décadas. As consequências mais diretas são hoje muito significativas no setor agrícola, responsável 75 a 80% dos usos, este ano afetando sobretudo a produção de alimentação animal e por essa via levando a que os efetivos animais tenham conhecido uma redução significativa.

GESTÃO DA ÁGUA

A procura de uma melhor e mais eficiente governança dos recursos hídricos, superficiais e subterrâneos, ganhou entre os principais utilizadores uma forte premência, criando uma convergência de preocupações para a forma como deveremos acautelar um modelo de desenvolvimento e de gestão da água que assegure maior sustentabilidade futura. As medidas mais objetivas e mais diretamente percecionadas decorrem de campanhas que visam a mobilização dos cidadãos para comportamentos mais alinhados com o valor da água, por isso capazes de contribuir para um uso mais eficiente, quer no dia a dia dos nossos consumos diários, mas também nos consumos escondidos sob a forma de hábitos de consumo de produtos e alimentos que incorporam enormes quantidades de água no seu ciclo produtivo, o apelo à redução de perdas físicas nas redes públicas de abastecimento de água ou nos sistemas de rega agrícola. Mesmo com muitas das nossas albufeiras em mínimos de armazenamento, o apelo a mais barragens e charcas para armazenagem constituem sempre um primeiro sentimento de resposta ao problema, sendo que se vem assistindo a estudos que possam estruturar melhor as res-postas em casos muito concretos do nosso território. Em algumas regiões e para complemento dos recursos hídricos tradicionais são delineadas novas origens a partir da dessalinização. Essa opção está já em andamento no Algarve, com apoio do PRR e integra um conjunto de medidas de eficiência hídrica, novas origens superficiais e promoção de águas para reutilização obtidas a partir das águas residuais.

ÁGUA PARA REUTILIZAÇÃO

O uso das ApR – Águas para Reutilização tem uma reduzida expressão em Portugal, mas está delineada uma estratégia para que possa chegar aos 20% das águas residuais tratadas em 2030, tendo por base o recurso a tecnologias que muito evoluíram nos últimos anos e que as nossas entidades gestoras bem dominam. Empresas do grupo AdP – Águas de Portugal foram desenvolvendo projetos pilotos na última década e estão hoje, com um quadro legislativo e regulatório robusto, pioneiro no espaço europeu, capazes de promover a produção de água para reutilização em usos compatíveis, desde a rega agrícola, usos urbanos de lavagem de ruas e contentores de resíduos, rega de espaços verdes e campos de golfe, processos de aquecimento e refrigeração industrial. A produção de cerveja VIRA, com recurso a águas para reutilização, num processo designado de ÁGUA+, foi um projeto desenvolvido com sucesso na empresa Águas do Tejo Atlântico e vencedor de um prémio europeu de inovação – na área de comunicação, visando “virar” a nossa sensibilidade para o tema da reutilização. Tivemos recentemente projetos de reuti-lização que sinalizam a concretização dessa vontade de potenciar o uso de ApR. Em Évora, uma iniciativa que promove a sua utilização em rega agrícola, depois de um período experimental, está agora formalizada por título emitido pela Agência Portuguesa do Ambiente, e esta semana foi possível assistir ao arranque de um novo projeto, neste caso em Castro Marim, para rega de campos de golfe. O Parque das Nações vai nos próximos dias acolher a Jornada Mundial da Juventude 2023, com a visita do Papa Francisco. Dessa visita, resultará para os territórios da foz do Trancão, nos municípios de Lisboa e Loures um enorme espaço verde para usufruto das populações, o qual será mantido com recurso a ApR num projeto integrado entre a Águas do Tejo Atlântico e o município de Lisboa. O ÁGUA+ traduz a vontade de gerir melhor os recursos hídricos, mas evidencia um conjunto de vontades articuladas das principais entidades com responsabilidades na governança da água, sinal dos tempos de mudança que são também de esperança na mais eficiente gestão deste recurso essencial à vida. Na campanha nacional que decorre sob o mote “Água é Vida, não a desperdice”, somos chamados a ser atores e parceiros deste desígnio nacional, parceiros envolvidos nas soluções e nos comportamentos. É um bom sinal saber que projetos como o ÁGUA+ são a garantia de termos a água que precisamos no futuro. Todos podemos fazer alguma coisa para aumentar a eficiência do seu uso.

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