ANTÓNIO SARAIVA

QUANTOS SOMOS?Depois de anos de polémica sobre a discrepância entre os dados relativos aos fluxos migratórios do INE e da AIMA, eis que surgem dados atualizados do INE sobre a mais elementar das perguntas: quantos somos? 

“Uma Autoridade Estatística independente e credível, que desenvolve processos estatísticos metodologicamente avançados, que recorre à inovação tecnológica, à ciência de dados, à integração de múltiplas fontes para fins estatísticos, no respeito pela confidencialidade dos cidadãos e entidades, e que devolve à sociedade estatísticas de valor para um melhor conhecimento, investigação e a tomada de decisão.” Este é o modo como o INE define a sua visão. 

No entanto, no melhor pano cai a nódoa, e depois de anos de polémica sobre a discrepância entre os dados relativos aos fluxos migratórios do INE e da AIMA, eis que surgem dados atualizados do INE sobre a mais elementar das perguntas: quantos somos? 

Esta é uma pergunta a que, desde tempos imemoriais, os decisores públicos se esforçam por responder. É o próprio INE quem nos diz, com rigorosa exatidão, que, em 2238 a.C., o imperador chinês Yao mandou realizar um censo da população e das lavouras cultivadas e que, no século XVI a.C., havia recenseamentos (anuais, note-se) realizados pelos egípcios. 

Aumento populacional 

Em tempos em que as tecnologias têm proporcionado um aumento exponencial na quantidade (e uma melhoria na qualidade) de dados disponíveis em todos os campos, soubemos, agora, que somos mais (significativamente mais) do que julgávamos. 

Precisamente, em média, éramos, no ano passado, mais 605 mil pessoas (5,6% mais) do que o INE nos vinha a dizer.O aumento da população entre 2020 e 2025 foi, afinal, de 9,8% e não de 4,0%. 

Esta diferença tem impacto, desde logo, no planeamento dos serviços públicos e respetivas infraestruturas. Tem impacto, sobretudo, nas políticas de integração da população imigrante, variável que sofreu a revisão mais significativa (mais 29% do que a anterior estimativa, em 2023). A população residente de nacionalidade estrangeira foi estimada, agora, em perto de 1,6 milhões de pessoas, representando 14,0% do total da população residente. 

A diferença tem impacto, também, na economia. Se somos mais do que pensávamos, o PIB per capita, indicador fundamental para aferir o desenvolvimento económico e o bem-estar material da população de um país ou região, é menor do que o que julgávamos. Em linguagem comum, podemos dizer que, afinal, somos mais pobres do que o que presumíamos. Mais precisamente, o PIB per capita de Portugal em 2025, que era estimado em perto de 28.400 euros, passou a ser estimado em perto de 26.900 euros: menos cerca de 1500 euros (ou seja, menos 5,3%). 

Isto significa, também, que o PIB per capita português (em paridades de poder de compra) é de 77% (e não de 81%) da média europeia, o que nos posiciona com o sexto valor mais baixo da EU (em vez do nono) e o quarto mais baixo da zona do euro (em vez do sexto). Significa, ainda, que a convergência com a média europeia nos últimos cinco anos foi muito menor do que os dados antigos faziam crer: 3,1 pontos percentuais e não 7,4. 

Revisão de dados 

Nada disto é negligenciável. Tem, por exemplo, implicações muito sensíveis no cálculo da alocação de fundos europeus ao nosso país. 

Ressalvo aqui que todos estes cálculos pressupõem que o PIB propriamente dito não é revisto. Ora, de acordo com a nota metodológica que o INE divulgou, esta revisão das estimativas da população residente implicará a revisão da população empregada, o que por sua vez, levará à reavaliação dos resultados das Contas Nacionais (logo, o PIB será revisto). Será, certamente, uma revisão pouco significativa, uma vez que a avaliação da atividade económica assenta primordialmente em fontes de informação que não sofreram alterações. Conhecê-la-emos em março de 2027. Até lá, paciência: para termos uma melhor ideia de quão ricos somos, teremos de nos basear em cálculos pouco rigorosos, como os que aqui procurei apresentar. 

Perdoe-me o leitor o tom por vezes irónico deste texto. Estamos a falar de assuntos sérios. Os dados são hoje encarados como o recurso mais valioso do mundo. Temos de reconhecer que dados incorretos geram análises erradas e decisões prejudiciais. As correções agora feitas (e as que terão ainda de ser realizadas) terão impacto nas análises (aliás, posso imaginar as dores de cabeça dos académicos e investigadores de diversas áreas, neste momento). Terãotambém algum impacto ao nível das políticas públicas? 

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