
A ECONOMIA REFÉM DA POLÍTICA E DA GUERRA
A guerra no Médio Oriente é mais um reflexo de que já não é a política que está refém da economia, mas, pelo contrário, é a economia que está refém da política e dos conflitos armados que, como afirmou o Papa Francisco, são a consequência do fracasso da política.
A ordem (ou desordem) internacional deixou de poder ser compreendida na ótica dos interesses nacionais, mas estásubmetida a objetivos pessoais restritos de líderes políticos e de redes de elites políticas, financeiras, militares (religiosas, no caso do Irão) que gravitam em torno desses líderes.
O ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão e a retaliação do Irão, são o resultado do fracasso da política e consequência de jogos de poder que dificilmente se compreendem num contexto de defesa de interesses nacionais.
Independentemente das motivações que podem explicar o fracasso das negociações e o início da guerra – deixo esta questão aos analistas políticos –, o facto é que a economia mundial está, de facto, refém dos desenvolvimentos deste conflito.
Petróleo e gás natural
O que está em causa é a interrupção dos fluxos de petróleo e gás natural através do estreito de Ormuz e a redução ou paragem de produção em muitos pontos do golfo Pérsico, seja porque a capacidade de armazenamento se esgotou (como no caso do petróleo, no Iraque), seja por motivos de segurança (como no caso do gás natural, no Qatar, na sequência de um ataque às suas instalações).
Cerca de 20% da oferta mundial de gás natural liquefeito e 25% do petróleo provêm desta região e passam pelo estreito de Ormuz e, apesar de terem como principal destino a Ásia e não a Europa (Portugal não importa petróleo ou gás natural do golfo Pérsico), os mercados são globais e qualquer perturbação nesta região desencadeia aumentos imediatos dos preços destes produtos. É isso que estamos a observar, com o impacto a sentir-se, embora com algum desfasamento temporal, nos custos de produção das empresas, em função da intensidade na utilização destas fontes de energia.
Preços instáveis
Se a situação for resolvida dentro de poucas semanas (como o Presidente Trump vaticina), os preços corrigirão, as repercussões serão contidas e o impacto económico será comportável.
Se o conflito se prolongar, os preços dos combustíveis continuarão persistentemente elevados e as empresas terão de repercutir os aumentos dos custos de produção nos preços (mesmo que parcialmente), dando origem a um inevitável movimento de contágio à generalidade dos preços, à semelhança do que se verificou em 2022. É esse o risco mais grave para a economia portuguesa e, de uma forma geral, para as economias europeias. Sabemos bem quais são as consequências da inflação e das políticas que seriam necessárias para a combater.
Na última crise, o Banco Central Europeu (BCE) encarou, inicialmente, o aumento dos preços como temporário e foi criticado por tardar em agir. O primeiro aumento das taxas de juro foi no final de julho de 2022, quando a inflação na área do euro já estava perto dos 9%. O economista-chefe do BCE, Philip Lane, já afirmou que o Banco está a acompanhar de perto a evolução da situação. As expectativas de inflação a um e dois anos já mostraram alguma subida, mas ainda não muito pronunciada. Surgindo sinais de que ultrapassam significativamente a meta de 2%, o BCE adotará, por certo, uma política monetária mais restritiva, aumentando as taxas de juro.
Amplitude e duração do conflito
Tudo depende, então, da amplitude e da duração do conflito. A natureza teocrática do regime de Teerão e a exaltação do martírio como sacrifício supremo não favorecem uma capitulação face a pressões externas ou internas. Está também afastada a hipótese de submissão dos sucessores de Khamenei aos ditames de Washington, ao contrário do que está a acontecer na Venezuela. Aliás, não parece ser esta a estratégia norte-americana. A duração do conflito dependerá, então, da capacidade do Irão resistir à total aniquilação das suas capacidades militares.
Receberá o Irão algum tipo de ajuda do exterior? Escalará o conflito, atacando diretamente os seus vizinhos árabes nas suas infraestruturas energéticas? Por quanto tempo conseguirá o Irão manter o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa a sua estratégia de sobrevivência? Poderá o Presidente Trump cumprir com eficácia a promessa de seguro contra riscos políticos e escolta naval aos navios que atravessem o estreito?
Provavelmente, quando este texto for publicado, já será possível ter uma ideia mais clara sobre todas estas questões. A economia mundial permanecerá, contudo, sob a ameaça de novos desenvolvimentos geopolíticos imprevisíveis, no contexto da nova (des)ordem internacional. O prémio de risco é alto.

