ANTÓNIO SARAIVA

UM ACORDO COM VALOR ESTRATÉGICO PARA A EUROPA 

Depois de 25 anos de negociações, avanços e recuos, o Acordo de Parceria entre a União Europeia e o Mercosul foi assinado. 

Com a eliminação gradual de mais de 90% das tarifas bilaterais, o acordo estabelece a maior zona de comércio livre do mundo, abrangendo mais de 700 milhões de consumidores e representando 20% do PIB global. Além disso, reduz barreias não tarifárias, abre mais oportunidades de acesso a serviços e aos mercados públicos e proporciona um melhor acesso a matérias-primas críticas de que os países do Mercosul são grandes produtores. 

Há estimativas que apontam para que o seu impacto conduza, a prazo, a um aumento de 40% no comércio entre ambos os blocos. Com uma maior concorrência, certamente haverá quem ganhe e quem perca, mas o acordo inclui mecanismos de salvaguarda precisamente para proteger setores mais sensíveis caso surjam perturbações de mercado.Em todo o caso, não será um jogo de soma nula, trazendo inegáveis benefícios económicos para ambas as partes. 

Enquadramento geopolítico 

No entanto, o verdadeiro valor do acordo vai muito para além da economia. Assume uma importância que só pode ser plenamente compreendida se o entendermos como uma resposta de resistência ao desmoronamento acelerado de uma ordem internacional baseada em regras e a um cenário de crescente protecionismo e unilateralismo. 

Em tempos normais, seria impensável que um acordo com tamanha dimensão e sensibilidade fosse concretizado sem o apoio da França. Mas estes não são tempos normais. 

Se, em 2025, assistimos ao abandono pelos Estados Unidos das regras que regiam o comércio internacional, neste início de 2026 torna-se claro que não é apenas o comércio que está em causa, mas todo o enquadramento geopolítico mundial. 

Numa recente entrevista ao New York Times, Donald Trump afirmou que a única restrição ao seu poder enquanto presidente dos EUA é a sua própria moralidade, a sua própria mente. E acrescentou: “Eu não preciso do direito internacional.” Na mesma entrevista justificou a sua vontade em “adquirir” a Groenlândia, “a bem ou a mal” com o facto de ser isso “o que sente ser psicologicamente necessário para o sucesso”. 

Antes desta entrevista, Stephen Miller, o influente vice-chefe de gabinete da Casa Branca para assuntos políticos e conselheiro de segurança interna tinha declarado, na mesma linha: “Vivemos num mundo em que se pode falar o quanto se quiser sobre subtilezas internacionais e tudo mais, mas vivemos num mundo, no mundo real, que é governado pela força, que é governado pelo poder. Estas são as leis férreas do mundo que existem desde o princípio dos tempos.” 

Uma oportunidade rara 

É neste contexto internacional que o acordo com o Mercosul proporciona à União Europeia uma rara oportunidade de demonstrar que se mantém fiel aos seus valores, ao compromisso com comércio baseado em regras, e que consegue encontrar aliados no mundo, salvaguardando a sua relevância geopolítica e económica. É particularmente significativo que o faça num continente sujeito, por um lado, às vicissitudes da doutrina Monroe e, por outro, à crescente voracidadeda China no acesso a matérias-primas críticas. 

O fracasso na concretização deste acordo teria sido desastroso, transmitindo uma mensagem de fraqueza e desunião da União Europeia, abalando a sua credibilidade enquanto ator geoestratégico relevante e deixando à China o caminho livre para reforçar a sua influência na América Latina. 

Em suma, com a relação transatlântica que conhecemos até agora a desintegrar-se, o acordo com o Mercosul surge como uma rara vitória para a Europa. Espero que contribua para uma dinâmica positiva para finalizar outros acordos que estão a ser negociados e para que a União Europeia fortaleça o compromisso com o comércio aberto, baseado na reciprocidade e em regras, juntamente com o maior número possível de países que partilham a mesma visão. 

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